Bem Vindo Visitante!                                                                                    Direitos Autorais   Política de Privacidade
:: Menu Principal
:: Mitologias e Artigos
:: Parceiros
Nova pagina 1
 
 
 
 
 
 
 
SmartSection is developed by The SmartFactory (http://www.smartfactory.ca), a division of INBOX Solutions (http://inboxinternational.com)
Artigos > Legado de Andúnië > Ensaios > A Chama Imperecível e os Pré-Socráticos
A Chama Imperecível e os Pré-Socráticos
Publicado por Mardo Anduniello em 10/4/2007 (2839 leituras)
Por Fëaruin

No nosso mundo, é (ou era) função da filosofia buscar um princípio único para tudo. A busca da arkhé (que é grego para, entre outras coisas, "comando"); essa busca reside na esperança de encontrar algo (a arkhé/princípio único) que ordene, dirija, guie todas as coisas; em suma, a physis, que significa em literal, natureza; mas o significado filosófico de physis é melhor representado como sendo gênese, origem, manifestação. Essa arkhé seria um princípio presente em todos os momentos da existência, ou seja, no início, desenvolvimento e fim de tudo. Esse era o tema desenvolvido pelos primeiros filósofos, a Escola de Mileto, que viriam a ser chamados pré-socráticos.

Tales, considerado o primeiro filósofo na tradição clássica, cria que a água era a tão louvada arkhé; nesse elemento, a physis (existência, "realidade") teria seu princípio único. Segundo o filósofo, a terra era originada a partir do resfriamento e densificação da água; de seu aquecimento, porém, vêm o ar e o vapor, que retorna como chuva, dando início a um ciclo. É claro que essa idéia tem muitas dificuldades, que não convém, contudo, discutir aqui.

Anaxímenes, também da Escola de Mileto, dizia que a arkhé, que comanda a physis, é o ar, um elemento não tão palpável e nem tão abstrato. Para Anaxímenes, tudo vem do ar; do ar rarefeito vem o fogo, de formas cada vez mais condensadas do ar vêm a água, a terra, etc. O ar é vida e respiração; tudo o que existe é resultado das variações mais inúmeras desse único e singular elemento.

É em Anaximandro, contudo, que parece residir a maior aproximação com o conceito de arkhé em Tolkien; se tomarmos, é claro, como arkhé, a Chama Imperecível, tão desejada por Melkor e, poder-se-ia dizer, pelos próprios filósofos ("amantes da sabedoria/conhecimento"). Anaximandro, também representante da Escola de Mileto, seria o outro extremo dos três cabeças pré-socráticos (Tales, Anaxímenes e Anaximandro). Tales é o extremo da materialidade, do concreto; Anaxímenes é o meio-termo entre os colegas; e Anaximandro o extremo da eterealidade.

Anaximandro diz que o princípio único, a arkhé da physis é o chamado ápeiron, que pode ser traduzido como "indeterminado" ou "ilimitado"; conceito que muitos que tentam esclarecer-se sobre a Chama Imperecível parecem aceitar, sabendo dizer o que ela seria, mas sem saber como concretizá-la de fato, em primordial.
Como a Chama, o ápeiron é eterno. Algo totalmente abstrato em primórdio; responsável, todavia, pela physis, mas sem se fixar diretamente em nenhum elemento palpável da natureza, da própria physis. Ao contrário do conceito de Tales, a idéia de Anaximandro é muito mais livre tanto no âmbito interpretativo como de aceitação como princípio de tudo.

Dessas três visões da ilustre Escola de Mileto, é a de Anaximandro, indubitavelmente, a que se correlaciona, ou ao menos se aproxima, com o conceito de Chama Imperecível como sendo responsável pela existência. Em Tolkien, a arkhé, o ápeiron de Anaximandro, é nada mais que a própria Chama (e não Eru, como se poderia pensar em prima), enquanto que a physis seria Eä como um todo de realidade, existência, Tempo e Espaço, passível de manipulação. A própria manifestação do ideário de Eru Ilúvatar.

É estranho pensar em Tolkien usando de um pensamento filosófico, já que a filosofia e o mito opõem-se conceitualmente; é engraçado notar, entretanto, que ao se tentar responder algumas questões pela via da filosofia, acabamos nos aproximando do mito. Do pensamento dos pré-socráticos, podemos fazer uma pequena analogia ao mundo tolkieniano e sua própria filosofia imersa e inerente ao seu mito. Ironicamente, tanto em Tolkien como no nosso próprio mundo, a filosofia parece trazer ainda mais perguntas quando tenta elucidar as anteriores.

Sendo assim, podemos afirmar, acho eu, que a Chama "comanda" ou "rege" a existência de uma maneira indireta, não-convencional e dificilmente compreensível. A idéia da Chama estar ou não dissociada de Eru é algo que reflete na origem da Chama, mas não creio que a defina. O quero dizer é que se a Chama, enquanto princípio de Tudo, é ou não algo totalmente separado de Eru é uma coisa que não diz respeito à Chama per se, mas sim ao próprio Eru. Se ele queria que sua criação... "vivesse", ou melhor, "existisse" sem depender dele diretamente (depois da criação e do Tempo, deixemos claro) é algo difícil de concluir.

Sem querer entrar no mérito do panteísmo, mas acho difícil que Eru tenha se dissociado da sua criação. Exemplo evidente é a Queda de Númenor. Apesar de relegar a regência de sua criação aos Valar, Eru nunca abandonou totalmente a sua criação. Pelo menos essa a impressão que eu tenho.

Navegue pelos artigos
A Escrita entre os Povos da Terra-média Próximo artigo
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.
Enviado por Tópico