Os Mitos, e o quanto variam.

Os Mitos, e o quanto variam.
Daniel Vital dos Santos Silva

Acredito que todos os estudiosos ou curiosos sobre mitologia já se encontraram nessa situação: consultando um mesmo mito (como o de Osíris, Isis e Hórus, ou o da Titanomaquia) encontraram as mais variadas versões daquele episódio. Não raros são os que chegam a apaixonadas extensas e bizantinas discussões a respeito da maior veracidade de tal autor, ou de tal episódio. Na verdade, o problema em geral não se encontra no autor, ou editor de determinada obra literária: e sim, na enorme variedade de relatos a respeito de um mesmo episódio.
Tomando como referência a famosa mitologia grega, vejamos os principais autores: Hesíodo e Homero. Sobre o segundo, pesam serias dúvidas mesmo sobre a sua existência, quanto mais do seu papel como em escrever a Ilíada e a Odisséia. Nele, entrecortado os vários cantos, há referências a vários deuses e episódios… e uma grande quantidade de variações. Para nos atermos a um caso mais famoso, a Ilíada dá conta de uma armadura que Aquiles teria recebido de Hefaísto. Porém, qual necessidade o invulnerável filho de Tétis, banhado no rio Estige, tinha dessa proteção, quando a sua pele já o era? No caso de Hesíodo, o autor da Teogonia, obra que dá conta dos princípios do mundo, admite a linhagem como originária de Caos, e, depois, de Geia e Urano. Por outro lado, outro antigo e menos famosos autor, Ferécides de Siros1, apresenta uma Teogonia onde a existência Zeus e Crono já remonta ao mesmo período que Geia, bem como a de Eros, que surge logo após o casamento entre Zeus e Geia.
A diferença entre as várias versões de um mito tem os mais diversos motivos. É muito clara a existência de autorias diferentes, mas também há o pertencimento a tradições e dogmas religiosos distintos. O antigo Egito conservou, durante muito tempo, um caráter de multiplicidade enorme na sua mitologia; diferentes tradições e corpus teológico tinham diferentes deuses criadores, que, por sua vez, em outras cidades, templos e tradições tinham outras funções. Assim, Toth é associado à Rá, e tido como criador da escrita em Mênfis, ou em Heliópolis; mas seu papel em Hermopólis, onde se localizada seu templo, era outro muito diverso, de criador do mundo. Antes de se perguntar qual a versão certa, talvez seja mais interessante perguntar e atentar para a diversidade, que tanto impede que exista uma versão única sobre os mitos – quanto oferece gratas surpresas para o estudioso, e indicações muito precisas sobre a origem, ou a forma como aquela divindade era representada por determinado grupo, e por que.
Portanto, não há motivos para alarme: a mitologia é rica e diversa o suficiente para, em si mesma, comportar variações – ainda maiores quando se considera, por exemplo, traduções que nem sempre são trabalhos elogiáveis, problemas na edição e na própria forma como o editor apresenta o trabalho, o que sem adapta, de que forma e para qual público. Assim, não é todo o livro de mitologias que traz o amor de Zeus pelo jovem Ganimedes, ou os amores homoeróticos de Apolo por Jacinto. Isso exige do estudioso maior argúcia e cuidado na hora de pesquisar determinado assunto: cuidado com a obra, com o publico a quem se destina, e jamais cessar na procura de novos dicionários, manuais, artigos e trabalho acadêmicos a respeito dos mitos.

Notas:
1Mais informações podem ser encontrada em: http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0708 com uma pequena biografia e controvérsias. Uma pesquisa sumária em livros não me deu grandes informações sobre o assunto em português.

A Mitologia, seus usos… e abusos.

A Mitologia, seus usos… e abusos.
Daniel Silva

A mitologia tem a incrível capacidade de se mesclar as mais variadas atividades humanas. Da decoração de prédios a histórias infantis, tanto temas mitológicos como adaptações inspiradas neles são amplamente comuns: se os mais velhos se lembram de Narizinho e do Saci, os mais novos, leitores de turma da Mônica, também tem um saci, ou a Bela e a Fera. Isso implica um entendimento renovado sobre os mitos: longe de funcionar como um corpo de textos antigos e incompreensíveis, eles vem sendo resgatados, reutilizados e resignificadas ao longo da História, e pelas mais diversas figuras, com os mais variados objetivos.
Senão vejamos: o famoso filme de Walt Disney, a Bela e a Fera, encantou gerações de crianças por todo o mundo. Persiste como referência, e um exemplo de sucesso cinematográfico. Sua inspiração, entretanto, vem de um episódio bem mais antigo, o fascinante mito de Eros e Psique: Eros, deus do amor, se apaixona pela mortal Psique. Esta, por sua vez, tem profetizado em seu destino que será amada e companheira de um monstro terrível (o amor) – tal e qual a Fera. O casamento se realiza, mas a relação fracassa num primeiro momento devido a falta de confiança, na qual Psique, insatisfeita porque jamais deveria ver seu amado, descumpre o juramento e termina afugentando-o. No fim, porém, devido a sua pertinácia, acaba encontrando seu amado e vivendo feliz, no Olimpo, assim como Bela e a Fera. Esse tema é igualmente comum na arte desde a antiguidade – há mosaicos, vasos e estátuas retratando-os, e, mais recentemente, o próprio Rodin na escultura “O Beijo” recorda esse episódio.
No Brasil não é diferente. Há várias estórias e lendas tradicionais contadas e recontadas, e utilizadas de maneiras diversas. O Saci, que era usado para assustar crianças, se converte em personagem de livros e histórias – e até escudos de times de futebol. Da mesma forma, a muitas estórias e lendas sobre fé e religião, recorrentes e que se tornaram músicas famosas – Calix Bento, na voz de Milton Nascimento é uma, mas há muitas outras.
Mas quando se diz: “o mito é resignificado” a questão não se esgota no caso do Saci, de fantasma para assustar os pequenos para símbolo de identificação. Há usos variados, e, freqüentemente, trágicos dos mitos. O caso é especialmente forte no caso da mitologia Grega e Romana – ou, com maior propriedade, da Antiguidade clássica. Na Europa, especialmente, os gregos e romanos eram vistos como um dos píncaros do desenvolvimento humano. Conforme se tornavam o racismo se aprofundava, a herança oriental que a Grécia colheu – sem dúvida extremamente rica, variada, e mais próxima de nós do que reconhecemos – foi “purgada”. Os gregos eram tratados como prodígios, ancestrais diretos e com o mesmo corpo de valores que os europeus dos séculos XIX e XX (e também antes, mas nesses séculos isso se exaspera). Naturalmente, revisitamos o passado, e o passado glorioso com perguntas e inquietações atuais – mas o movimento que ora tratamos brevemente foi fortemente marcado pela exclusão e pela eugenia. Mussolini via no Estado Facista o ressurgimento do glorioso passado imperial romano da Itália, assim como Hitler queria o ideal da super-raça ariana. O resultado é que esses períodos, com símbolos, significados e trajetórias particulares e relacionadas ao seu contexto histórico, são simplesmente moldados e deformados pelo futuro ao bel prazer de seus interesses – inclusive políticos.i
Muitas vezes, questiona-se como tal foi possível. A resposta é simples: da mesma maneira que vemos, ainda hoje, na educação, uma admiração enorme pela Grécia e Roma Antigas, ou pela idéia que os criadores desse modelo educacional faziam delas, isso era ainda mais forte na Europa do século XX. A emergência de grupos políticos que utilizavam linguagens e símbolos caros a sociedade em geral era uma forma de criar identidade entre esses grupos e sua agenda, e a sociedade em geral.
A lição que podemos extrair de um episódio como esse é, sobretudo, a seguinte: os mitos são diversos e se prestam aos usos mais variados – especialmente quando há ligações afetivas muito fortes. Cabe a quem lê, assiste, ou escuta, o senso crítico de perceber o que aquilo significa para quem fala, para quem ouve, e quem se beneficia com aquilo – e, de resto, se deliciar com os suculentos episódios da mitologia.

Notas:
iEsse assunto é retomado, no âmbito da História, por Martin Bernal, no artigo A Imagem da Grécia Antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia européia. In: FUNARI, Pedro Paulo de A (org). Repensando o Mundo Antigo. São Paulo: 2003. Textos didáticos nº 49.

A Festa do Macaco Prego

A Festa do Macaco Prego

Por Sela
No caminho de Peabiru o macaco cantava assim:
Eu vou dar uma festa
eu vou convidar, ieeieu…ieeeiieeu
o Saci-Pererê, a Iara, também o Sepé Tiarajú, o Boto, a Cobra-grande, o Caipora, também os Gêmeos Sol e Lua,
a Vitória Régia vai fazer a decoração, o Colibri vai lhe ajudar, vem Mani, Avati, Arakuni vai fazer Kulupienê, a Piragui vai te encantar,
São João da Cruz vem pra benzê.
Tem lugar pra todo mundo, vem gente das Quatro Direções Sagradas, até os Bois vem de lá do Parintins, Negrinho do Pastoreio vai lhes buscar,
a Cuca diz que vai se comportar…
Eu vou dar uma festa, venham todos, festa boa não tem hora pra acabar.
O local é no teu Centro, de caminho pra Tery Maräe-ÿ.
Vai ser de lascar, todo o mundo vai se encontrar,
não fique sozinho na casinha pequeninha.
O Folharada vai fazer Beijú nas Panelas Cantoras dos Waurá.
Não Perca!
O Uirapuru vai cantar e os Mbyá vão dançar.
Hó seu João-de-barro, venha e traga sua companheira, deixa de ciumeira!
Vai ter concerto de Flautas Kamayurá!
O Tuiuiú chega amanhã do Pantanal com notícia boa de lá
A Festa vai ser de lascar, é capaz de nem terminar!
Não precisa se importar, aqui mesmo você vai se encontrar
e nada vai lhe faltar.
Vem brindar a Pindorama pra Cobra-canoa não virar.
Todas as mulheres vou convidar
porque o Lua vem namorar!
Poema publicado no livro 6º Conto e Poesia, do Sinergia (Florianópolis, SC, 2008).

Lilith: mulher, serpente, demônio, mito – uma análise de arquétipos femininos nas lendas judaicas e no cristianismo

Lilith: mulher, serpente, demônio, mito – uma análise de arquétipos femininos nas lendas judaicas e no cristianismo
Fernanda Cristina Vale
Graduanda do curso de História da Universidade Federal do Maranhão

RESUMO:
O presente texto pretende analisar as representações e a presença no imaginário coletivo de Lilith, a primeira mulher de Adão para as lendas hebraicas, bem como as dos tradicionais arquétipos femininos bíblicos de pecado e redenção, Eva e Maria, no sentido de pensar os vários estigmas e estereótipos gerados a partir destes modelos para as mulheres ao longo do tempo.

PALAVRAS – CHAVE: Lilith, Eva, Maria, arquétipos femininos.

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Introdução:
A lenda de Lilith:
Na Bíblia, os principais arquétipos femininos são o de Eva, a mulher que trouxe o pecado para a humanidade; e o de Maria, a mulher que trouxe ao mundo aquele que salvaria todos os homens do pecado. Porém, há na mitologia semita, uma terceira mulher cuja trajetória está diretamente ligada à do destino da humanidade: Lilith, a primeira esposa de Adão, a serpente que enganou Eva, o demônio da luxúria.
Existem algumas versões diferentes da lenda de Lilith, na mais aceita pelos estudiosos do mito e com fundamentos na Talmud (um dos livros considerados como fonte da sabedoria rabínica), Lilith é criada por Deus da mesma forma como Adão, ou seja, moldada pelas mãos divinas, só que a partir de lodo e fezes. Os dois são o primeiro casal, responsáveis por cuidar do Éden. Só que com o tempo Lilith se rebela por não se conformar em estar em uma posição inferior a de seu marido, já que ambos foram criados a imagem e semelhança de Deus. A submissão é detectada inclusive sexualmente, onde Lilith exerce poder de sedução e entorpecimento orgástico em Adão e ele, por outro lado, se deita continuamente sobre ela, num sinal de domínio no coito e na relação, o que Lilith não aceita (GOMES & ALMEIDA, 2007: p. 11).
Em busca de igualdade, Lilith entra em conflito com seu marido, contesta sua posição de inferioridade, e contesta também o criador, tendo que escolher entre se submeter ou deixar o jardim. Ela escolhe a segunda opção e parte para um exílio no Mar Vermelho, reduto de demônios. Durante algum tempo Lilith se vê impelida por anjos a voltar ao jardim, porém escolhe viver como demônio e abandona de vez Adão (RODRIGUES, 2007: p. 07). Este, triste por perder sua mulher, adormece, e a partir de sua costela Deus cria Eva, uma mulher que saiu do homem, portanto dependente e submissa a ele, a que seria oficialmente a primeira esposa de Adão, a mãe da humanidade.
Após seu exilo no Mar Vermelho Lilith volta ao Jardim do Éden como um demônio, e na forma de uma serpente é responsável pela tentação de Eva, que levou toda a humanidade ao pecado. Com astúcia, Lilith confunde Eva e desperta nela o desejo de igualdade, não a igualdade com o homem, que a primeira mulher antes desejava, mas a igualdade com o próprio Deus (FONSECA, 2007).
Na Bíblia, não temos nenhuma referência à Lilith, e a serpente é identificada com o Diabo, mas no imaginário judaico, já associado às lendas mesopotâmicas, Lilith é o demônio da luxúria (NOGUEIRA, 2002: p. 17) – que tentava os jovens sexualmente á noite levando-os a sonhos eróticos e “poluição noturna”-, e mais tarde, com a maior sistematização das crenças de Israel, a lenda foi acoplada à idéia do Diabo e suas hostes. Por outro lado, o mito de Lilith, presente originalmente na cultura dos babilônicos e assírios, perdurou também na tradição oral dos hebreus e nos livros de sabedoria, considerados apócrifos pela cultura cristã. Além disso, a lenda tem sido retomada pelo estudo das religiões, religiões e mitologias comparadas, psicologia e pela astrologia e misticismo, onde Lilith é a lua negra, a face oculta lunar.
Desse modo, pretendemos analisar os três arquétipos femininos que aqui propomos: o de Eva, o de Maria, e o exposto acima, o de Lilith.


Figura 1: O pecado original e a expulsão do Paraíso. – Michelangelo, séc. XVI. (Capela Sistina)

Eva:
Eva é, segundo a Bíblia, a primeira esposa de Adão. De acordo com este livro sagrado, depois que todas as coisas já haviam sido criadas, Deus a fizera de uma costela do homem para ser a companheira deste, pois todos os outros animais tinham um par, menos o ser humano. Adão nomeou-lhe, como tinha feito com o resto da criação. (Gênesis, cap. I e II)
Ela é também a responsável pelo pecado original, pois sucumbiu aos apelos da serpente e comeu do fruto proibido por Deus, desobedecendo às ordens divinas. Além disso, convenceu Adão a também desobedecer a Deus e comer do fruto da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, o que levou toda a raça humana à perdição.
Segundo o que expõe Jacques Le Goff, dentre as interpretações que podem ser feitas dos primeiros capítulos de Gênesis, temos a de que Eva foi uma criação imperfeita até ser nomeada por Adão, e a de que a existência dela, e da mulher, só acontece em razão das necessidades de Adão, ou seja, Deus só a criou quando percebeu que o homem estava só e precisava de uma companheira (LE GOFF, 2008: 121). Daí podemos colocar que Eva só poderia ter sua identidade e existência ligadas a de Adão.
São Tomás de Aquino, um dos maiores teóricos do catolicismo, viu no fato de Deus ter criado Eva a partir da costela de Adão um indício de igualdade entre homem e mulher, pois, segundo ele, se Eva fosse criada da cabeça seria uma indicação de superioridade, e se fosse criada do pé, uma indicação de inferioridade (LE GOFF, 2008: 122). Por outro lado, esse também pode ser um indicativo de profunda ligação e até mesmo dependência entre os dois, principalmente de Eva em relação a Adão, de quem foi gerada, o que transferido para o imaginário pode implicar na idéia de dependência das mulheres para com os homens.
Quando Eva foi tentada pela serpente a Bíblia não revela explicitamente se ela estava sozinha ou em companhia de Adão, porém a não interferência dele no diálogo entre ela e a serpente faz parecer que ambas estavam sozinhas. Eva é tentada a ser como Deus, conhecedora do bem e do mal, caso comesse do fruto da árvore do conhecimento, além disso, não enfrentaria a pena instituída por Deus para a desobediência, a morte. Após analisar o fruto, a mulher decide comê-lo e o oferece a seu marido, que também come. Imediatamente ambos percebem que estão nus e se escondem ao ouvir a voz de Deus (Gênesis, cap. III).
É importante notar que quando Deus pergunta sobre a desobediência, Adão culpa Eva e esta culpa a serpente. Os três são penalizados, a serpente – que segundo lendas tinha asas – rastejaria para sempre; o homem teria que trabalhar para se sustentar; a mulher e a serpente seriam inimigas; a mulher teria dores de parto e seria dominada pelo marido; e por fim a humanidade estava banida do Paraíso. Há ainda a menção do filho da mulher que esmagaria a cabeça da serpente, o que para alguns teólogos faz referência à Cristo e Satanás (Gênesis, cap. III).
Eva é então a culpada pelo pecado original, o que, no imaginário, se dissemina para todas as mulheres. É interessante que Eva, apesar de transgressora, fica ao lado de Adão para ouvir sua sentença, e a cumpri, carregando o estigma de pecado, impureza, fragilidade, ingenuidade e sofrimento remidor que se estende para as mulheres na sociedade cristã, como algo inerente a sua natureza. Lilith, por sua vez, escolhe viver sozinha e errante, e como mulher não recebe o castigo da maternidade, ou a maternidade como um castigo, no sentido das dores de parto e do sofrimento, como logo veremos com Maria.
Assim, além de culpada pela desgraça humana, a mulher (a partir de Eva) é também estereotipada como aquela que dá ouvidos ao Diabo, tendo, portanto, propensão a ser enganada por ele e a seguir seus desígnios e ardis. Esse estereótipo perseguiu as mulheres principalmente durante a Inquisição, onde o nascer mulher já era um pressuposto para uma acusação de pactos demoníacos sob a forma de bruxaria ou feitiçaria.

Maria:
Em Maria temos a mãe do Salvador da humanidade. Ela é a responsável por trazer ao mundo o Deus encarnado, e tão miraculosa quanto a encarnação divina é a forma como ela acontece, pois Maria engravida do Espírito Santo ainda sendo virgem. Tal qual o Deus, que é Deus e homem, Maria é ao mesmo tempo mãe e virgem.
É interessante essa atribuição dada a Maria, pois mesmo com o parto e com o casamento com José ela permanece sempre virgem nas pregações e no imaginário cristão. Maria reúne, portanto, atribuições que remetem a mulher cristã perfeita: aquela sempre casta sexualmente, pois de virgem e pura passa à maternidade sem conjunção carnal, e depois de mãe torna-se assexuada, como todas as mães são ou deveriam ser no imaginário ocidental.
Para Eva, a maternidade foi um castigo para o pecado, pois com ela vieram as dores e o sofrimento. Mas é através do castigo de Eva que vem a honra à Maria e a remissão não só a humanidade como a todas as mulheres. Como coloca Jacques Le Goff (LE GOFF, 2005: p. 285):

Quando no Cristianismo há a promoção da mulher – somos levados a reconhecer no culto da Virgem, triunfante nos séculos 12 e 13, uma mudança de rumo da espiritualidade cristã, que passa a sublinhar a redenção da mulher pecadora por Maria, a Nova Eva (…).

Assim, Maria ocupa o posto de mãe simbólica da humanidade, que pela lógica deveria ser de Eva, remediando através “do fruto de seu ventre” o desastre que a outra havia cometido. Maria também passa a ser símbolo do catolicismo, e é até hoje ícone dos católicos perante os outros cristãos, através de sua imagem, suas orações e a devoção que a Igreja presta a mãe de Cristo.
É importante ressaltar que, dentro de uma sociedade visivelmente machista e de pensamento masculinizado que é a ocidental, fruto das misoginias judaica e ateniense, a maternidade e a geração da prole foram o ápice da vida feminina durante séculos, onde os prazeres sexuais das mulheres, sempre tolhidos, deviam estar associados com a possibilidade de procriação.
Vale salientar que o modelo feminino de Maria é complementar ao de Eva no sentido da maternidade, pois Eva é o exemplo de boa esposa: companheira, submissa, que fica ao lado do marido; e Maria é por excelência o modelo de mãe ideal, sendo o casamento e a geração de prole idéias subseqüentes.
Apesar de toda valorização de Maria em oposição ao pecado de Eva há na imagem das duas algumas semelhanças, pois ambas só podem ser percebidas e são diretamente associadas às figuras masculinas que lhe acompanham, Adão e Cristo. Nesse sentido, há a dependência da imagem masculina para complementar o papel feminino nas duas personagens, pois Maria só é Maria pelo fato de ser mãe de Cristo, e Eva só veio a existir pelas necessidades de Adão. Quando se pensa em Maria há a associação imediata dela com seu papel de mãe de Jesus, e quando se pensa em Eva, ela é inseparável de seu companheiro Adão, no binário Adão e Eva, com exceção do momento da tentação e do pecado, onde parece que Eva foi a única culpada pelo pecado original.
Além disso, Maria e Eva coincidem em mais um aspecto: o sofrimento. Para Eva são as dores de parto, para Maria as dores de ver o próprio filho no caminho para o Calvário. Estas imagens nos trazem um modelo do feminino que só se realiza na maternidade, a qual sempre lhe traz sofrimentos, desde o parto e continuamente nas preocupações maternas e, supostamente, instintivas da mãe para com o filho, a querer poupar-lhe sempre e em sofrer com os seus sofrimentos, como se fosse um castigo divino.

Lilith:
Se Eva nega sua ambição e seu desejo de ser igual a Deus, conformando-se em ser dominada por seu marido, arquétipo perfeito da mulher desastrada e submissa; e Maria nega sua sexualidade, sendo mãe e virgem, arquétipo materno; Lilith, por sua vez assume desde sua criação suas convicções, ambições e sua sexualidade, sendo, por isso, até mesmo aquela mulher que assusta, domina e pode destruir.
Segundo descrições das escrituras hebraicas (Torah e Midrash), Lilith se apresentou a Adão coberta de sangue e saliva, o que para a psicóloga Cátia Rodrigues representa o seguinte (RODRIGUES, 2007: p. 05):

O sangue mencionado na citação acima sugere a menstruação, uma característica carnal e instintiva da mulher, além da ausência de pudor e tabus de Lilith, que apresenta-se livremente ao homem, disposta também à experiência sexual no ciclo menstrual. A saliva reforça o caráter sexual simbólico, remetendo a uma idéia de secreções eróticas. Deste modo, fica evidente a condição sensual e libertada dos preconceitos dentro do universo simbólico feminino em Lilith; é essa atuação sexual, que leva o homem ao êxtase e fora do controle sobre si mesmo, o que amedronta o universo simbólico masculino expressado em Adão: por isto, ele se afasta e busca uma companheira adequada – ou seja, submissa, obediente, que sinta-se inferior.

Na última frase de Rodrigues acima citada poderia ler-se: que sinta-se inferior por causa de seu próprio corpo, pois é desse modo que a mulher é educada tradicionalmente, a tolher sua sexualidade e envergonhar-se dela.
De todo modo, Lilith seria um arquétipo feminino de independência e sensualidade. Representaria a mulher que não se envergonha de si própria, mas ao contrário, tem orgulho de ser mulher, e expressa esse orgulho através de sua sexualidade. Lilith também demonstra esse orgulho ao não permitir-se viver em submissão a Adão, deixando para trás o paraíso para ter, por opção, uma vida livre e fora da sombra masculina, pagando por isso a pena de se tornar um demônio. É o oposto, portanto, ao modelo de mulher tolhida, submissa, arrependida, e que só tem sua identidade ligada a uma figura masculina.
Nas palavras de Eduardo Fonseca, “Lilith é a figura da mulher insubmissa, intelectual, vigente, guerreira e fêmea em todos os sentidos, porém, clitorianamente ativa.” (FONSECA, 2007). Nesse último aspecto Lilith passa obviamente para o pólo oposto ao de Maria, pois sua sexualidade latente não corresponde à figura estereotipada que as sociedades ocidentais, em geral, têm das mães.
Segundo os psicólogos Antônio Gomes e Vanessa Almeida (GOMES & ALMEIDA, 2007: p. 16):

As conseqüências da repressão da sexualidade de Lilith são entre outras a dissociação entre a maternidade e a sexualidade, o duplo padrão de moral e o controle da sexualidade masculina.
Tal dissociação criou a figura da esposa dissociada da imagem da mulher, o que significa que o homem ocidental não consegue identificar a esposa e a amante numa mesma mulher, recorrendo ao duplo padrão de moral para realizar seus desejos sexuais. O que se observa frequentemente é que ele mantém a esposa em casa para lhe dar filhos e a amante para lhe dar prazer. Este padrão vem sendo quebrado pelas mulheres que não mais aceitam esta condição de mulher incompleta que as coloca numa condição humilhante perante Deus e o homem.

Nesse sentido, nos mitos temos Eva como boa esposa, que embora falha, reconhece seu erro e permanece ao lado de seu marido (mesmo ele não a tendo defendido, mas acusado perante Deus); e Lilith, que desde o início desperta singular desejo no homem, mas que ele não pode ter, pois para isso teria que destituir-se da sua posição superior a ela. Assim, Lilith representa a mulher perigosa, indomável e sensual, a qual o homem não pode possuir oficialmente, pois isto lhe custaria uma relação de extrema igualdade no casamento, uma representação social com a mesma notoriedade daquela que o acompanha.
Ainda sobre a relação Adão – Lilith, os psicólogos escrevem (GOMES & ALMEIDA, 2007: p. 11):

Segundo o mito, as relações entre Adão e Lilith foram marcadas pela emergência, pela paixão capaz de dominar Adão e fazê-lo perder a razão e entregar-se a luxuria. Acredita-se que a sedução produzida por ela o fazia afastar-se de seus compromissos com a divindade.

e (RODRIGUES, 2007: p. 18):

Lilith está por trás dos fenômenos histéricos, a partir da repressão da sexualidade, que origina somatizações e enfermidades. É ela a responsável pela desunião da família, seja projetada em uma amante sedutora que ‘tira’ e ‘rouba’ o marido da esposa, seja projetada na rebeldia da esposa que não suporta o “não” de seu marido-Adão.

Certamente, no fator citado acima está mais um dos que tornam a figura de Lilith perigosa, ela seria o tipo de mulher capaz de dominar o homem e fazê-lo esquecer de suas responsabilidades, levando o fim das relações – com o divino e com o próximo.
Porém, para além da questão sexual, que desencadeia muitas outras lendas e interpretações a respeito de Lilith, como a que coloca que ela seria um demônio que povoava os sonhos dos homens israelitas, tornando-os eróticos (GOMES & ALMEIDA, 2007: p. 11), sendo, assim, o primeiro súcubo, ou a mãe dos súcubos; Lilith pode ser considerada um exemplo de coragem do espírito feminino ao não se submeter, ao desafiar o homem e o divino em busca de suas convicções.
Lilith teria tido um castigo a altura de suas afrontas no ponto de vista da misoginia judaica, pois o preço por sua rebeldia foi tornar-se um demônio. Lilith fora criada como mulher, mas a nova condição a impedia de um convívio com a humanidade, e de acordo com a punição onde mulher e serpente seriam para sempre inimigas, Lilith e seu arquétipo tornaram-se drasticamente opostos e até mesmo rivais de Eva e o modelo de mulher que ela sugere. Nesse ponto temos ainda a já referida dicotomia entre a esposa e a amante, presente no imaginário.
Outro aspecto é a referência demoníaca de Lilith, pois se Eva é aquela mulher que cede aos assédios do demônio, Lilith é o próprio demônio. Sendo representada durante séculos na literatura como a mãe dos súcubos, a esposa de Satanás, a Lua Negra, a bruxa que mata criancinhas, e etc., sendo mencionada também no cinema e em famosas séries de televisão com os mesmos atributos. O mito de Lilith reforçou, nesse ponto, o preconceito contra as mulheres que eclodiu principalmente durante as Inquisições medieval e moderna, onde milhares foram queimadas sob a acusação de bruxaria, principalmente aquelas que explicitavam sua sexualidade e sua força, tornando-se um incomodo social.
Nesse sentido, reforça-se a idéia de que a mulher que detém poder é geralmente perversa e, ao contrário, a docilidade e a bondade, são atributos associados à submissão feminina, à passividade em aceitar imposições. Temos exemplos históricos de mulheres cujo poder, sabedoria e astúcia foram ligados a uma suposta crueldade, como Cleópatra, Agripina, Messalina e Catarina de Médici, entre outras.

Considerações Finais:
De modo geral, o que mais chama atenção em Lilith é sua personalidade ativa e independente, sua coragem e autoconfiança, que são indubitavelmente aspectos inspiradores para qualquer mulher da contemporaneidade.
Por outro lado, os padrões socialmente instituídos de casamento e maternidade, para os quais também foi inventado que a mulher se destina, se espelham na docilidade e companheirismo de Eva e no amor incondicional de Maria, que no imaginário católico se estende de Cristo para toda a humanidade, de modo que estes são modelos de feminino ainda válidos e importantes para o papel da mulher na sociedade.
Fica, portanto, a questão: poderiam os três arquétipos coexistir numa mesma mulher, ou fazerem parte de um mesmo ideal de feminilidade? Uma visão mais conservadora diria que não. Diria que uma mulher independente, que desejasse espaços de expressão própria fora da sombra masculina teria pouquíssimas possibilidades de sucesso no casamento e na maternidade, e que, do mesmo modo, uma mulher casada e mãe deveria ter a sexualidade inibida e se dedicar quase com total exclusividade ao papel materno.
Porém, os espaços que a mulher tem ocupado nas ultimas décadas provam o contrário. Uma jornada tripla, de profissional, mãe e esposa tem sido a rotina de muitas mulheres, que apesar de alguns entraves conseguem conciliar bem a independência – social, financeira, cultural, etc. – com os papéis de mãe e esposa.
É importante ressaltar que estes arquétipos femininos, que a tradição colocou como opostos entre si, onde a mulher livre e independente foi, por muitas vezes e em muitas sociedades, estigmatizada e marginalizada, tida como incapaz de ser mãe; podem guardar dentro dos mitos (e/ou histórias) que as originam um mesmo principio materno. Pois, Lilith, como a primeira mulher de Adão poderia ser a mãe de uma humanidade mais liberal, menos hipócrita e complexada, e de fato foi “mãe” e mentora de muitos homens e mulheres, a começar pela própria Eva.
Lilith, aliando aspectos do modelo de Eva e Maria, representa esta mulher livre, inteligente, forte e disposta a enfrentar preconceitos e adversidades, a qual tem mostrado uma influência cada vez maior na sociedade, dentro da política, da economia, das artes e da ciência, ocupando espaços antes exclusivamente masculinos, conquistando aos poucos a dita igualdade que tantos atritos gerou no Éden.
Assim, concluímos este texto com a acertada afirmação de Antonio Gomes e Vanessa Almeida sobre a primeira mulher da face da terra (GOMES & ALMEIDA, 2007: p. 18):

Em linhas gerais isto quer dizer que ela representa o oposto das características que foram culturalmente atribuídas como obrigações femininas. Lilith representa, portanto, a rebeldia contra a passividade, à submissão e a obediência. O repúdio à tradição patriarcal de dominação do homem sobre a mulher; a luta pela igualdade de condições e direitos e principalmente o desenvolvimento de ações seguras e assertivas diante de seus ideais.
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BIBLIOGRAFIA:
BIBLIA SAGRADA. Edição Revista e Corrigida. Trad.: João Ferreira de Almeida. King’s Cross Publicações, 2007.
FONSECA, Eduardo. Lilith ou Liliath. In: http://www.yorubana.com.br/textos/lilith.asp, 2007. Acessado em 29/01/2010, às 15: 50 h.
GOMES, Antonio Maspoli de Araújo. & ALMEIDA, Vanessa Ponstinnicoff de. O Mito de Lilith e a Integração do Feminino na Sociedade Contemporânea. In: Âncora – Revista digital de estudos em religião. Ano II, Vol. II, Junho 2007.
LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. São Paulo: EDUSP, 2005.
_______________. Uma longa Idade Média. Trad.: Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2008.
NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. São Paulo: EDUSC, 2002.
RODRIGUES, Cátia Cilene Lima. Lilith e o arquétipo do feminino contemporâneo. In: Ética, religião e expressão artística. Anais do III Congresso Internacional de Ética e Cidadania. 2007.

O fantástico sombrio de O Labirinto do Fauno

O fantástico sombrio de O Labirinto do Fauno
Fernanda Cristina Vale
Graduanda do curso de História da UFMA

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, Guilhermo Del Toro, 2006), mistura elementos míticos do paganismo pré-cristão com os conflitos da Guerra Civil entre governo fascista e rebeldes espanhóis na década de 1940. Isso acontece através da história da pequena Ofélia (Ivana Baquero), uma menina de dez anos de idade que vive as atrocidades e a intolerância do fascismo, que é representado no filme por seu padrasto Vidal (Sergi López), um intransigente e inescrupuloso oficial do exército.
Enquanto sua mãe está tendo uma gravidez difícil, a família se muda para a região montanhosa de Navarra, onde Vidal vai combater os rebeldes ao regime fascista. Na nova casa Ofélia descobre um mundo mágico, porém diferente daqueles que estamos acostumados a ver nos filmes onde há referência à magia no universo infantil, o mundo paralelo de Ofélia é tão sombrio e tenso quanto o real.
A menina é então provada a mostrar-se merecedora do posto de princesa no Mundo Subterrâneo, passando pro vários momentos de angústia e perigo, reais e fantasiosos.
Em meio às preocupações com sua mãe, Ofélia conhece um Fauno num velho labirinto nos jardins da mansão. O Fauno, que no filme se diz o último representante da sua espécie, foi um deus da mitologia romana associado a Pã e aos sátiros gregos, teria sido fruto da relação de Zeus com Amaltéia, uma cabra. Seu corpo é de um bode da cintura para baixo e de homem da cintura para cima, tendo chifres e orelhas de bode na cabeça. No filme, além dessas características, o Fauno é apresentado em semelhança a uma árvore envelhecida, o que pode ter um fundo mitológico no sentido de que o Fauno era o deus dos bosques.
Na mitologia, o Fauno ou Pã era uma figura dúbia, perturbadora daqueles que vagavam pela floresta à noite, que usava o som de sua flauta para entorpecer e atrair as mulheres a si. Ao longo do filme, a disposição do Fauno em ajudar a pequena heroína, a quem devia conduzir de volta ao mundo subterrâneo, é contrastada com sua aparência bizarra, com sua voz ameaçadora e com seu olhar de astúcia e sabedoria. Não sabemos se o Fauno é um favorecedor ou se é mais um vilão que se aproveita de Ofélia. Isso porque, para o imaginário cristão a representação da figura do Fauno é igual a representação clássica do Diabo: pés e pernas de bode, chifres caprinos na cabeça…


Figura 1: Cena do filme O Labirinto do Fauno.

Sobre os Faunos e sua representação demoníaca, o historiador Carlos Roberto Nogueira coloca que eles foram associados ao Diabo devido à sua forma híbrida, que remetia à imperfeição natural do imitador de Deus; sua selvageria; seu apetite sexual e sua hostilidade. Além disso, os bodes, por seu mau-cheiro, pelos prejuízos que causavam e, principalmente, pelas referências da Bíblia sempre foram relacionados com o mal (NOGUEIRA, 2002: pp. 66 – 67).
Desse modo, as atribuições demoníacas herdadas das divindades pagãs, nesse caso do Fauno, as quais estão presentes no imaginário, representam mais um dos sombrios diferenciais de O Labirinto do Fauno para o expectador contemporâneo.
A partir de seus contatos com o Fauno, Ofélia passa a trilhar uma jornada de mistério e sofrimento. Paralelamente, os combates entre exército e rebeldes são mostrados de forma cruenta. As tramas, maldades e imposições de Vidal oprimem Ofélia e a mãe Carmen (Ariadna Gil) que se vêem como reféns aos desmandes do protótipo de ditador. A gravidez de Carmem parece só ter interesse para ele no sentido de que lhe nasça um filho homem, independentemente da saúde frágil da esposa.
Assim, num dado momento do filme Ofélia teme a morte da mãe e recebe ajuda do Fauno para que o estado de saúde dela se normalize. Este lhe presenteia com uma raiz de mandrágora, planta que no imaginário popular até os dias de hoje é associada ao misticismo. Segundo a lenda, a raiz da mandrágora tem o formato do corpo de uma mulher e é o fruto do sêmen dos enforcados, ejaculado após a ereção causada pelo enforcamento.
O Fauno dá a Ofélia a raiz, a qual tem a aparência de vegetal, porém formato humano e se movimenta como um bebê pequeno. Para que sua mãe não sofra um aborto, Ofélia é instruída a deixar a mandrágora numa tigela de leite debaixo da cama e alimentá-la todos os dias com uma gota de sangue.
Em troca do favor, o Fauno pede a Ofélia mais uma prova de sua coragem e caráter. Ela teria que passar a outro mundo e roubar um punhal do Homem Pálido, um monstro cujos olhos ficavam nas palmas das mãos e que, se acordado por alguém que provasse do banquete a sua frente, devorava os seres que visse pelo caminho. O Fauno instrui Ofélia a não comer nada, porém ela não resiste à tentação, come e acorda o furioso monstro. Na perseguição, acaba perdendo uma das bizarras fadinhas – ou ninfas – do Fauno, a qual é devorada pelo Homem Pálido, o que deixa o Fauno enfurecido e decepcionado.
Nesse momento as coisas se complicam, pois Vidal descobre a mandrágora debaixo da cama da esposa, a retira e, indignado, prende Ofélia em um quarto. Sem a mandrágora, que fora lançada ao fogo, a mãe de Ofélia dá a luz, porém não resiste e morre.
A partir daí, a única amiga de Ofélia é a cozinheira Mercedes (Maribel Verdú), que na verdade é uma informante dos rebeldes por quem, ironicamente, Vidal acaba se interessando. Numa bem tramada de sequência de traições, torturas e reviravoltas Vidal se vê acuado pelo exército rebelde e, nesse momento a orientação que Ofélia recebe do Fauno é de levar seu pequeno irmão até o labirinto.
Somente neste momento, com o desfecho do filme, sabemos a real índole do Fauno. Nas cenas finais permanece a crueza da realidade e da fantasia de Ofélia. Seu valor é provado de forma que pode ser tida como triste ou compensatória, dependendo do ponto de vista, mas em que, mais uma vez o imaginário, o mitológico e a fantasia – quase sempre sombrios – se sobressaem ao angustiante mundo real.

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Referências:
EL LABERINTO DEL FAUNO. Dir.: Guilhermo Del Toro. Distribuído por: Warner Bros Prictures, 2006, ficção, 1h. 52 mim.
NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. São Paulo: EDUSC, 2002.

A Natureza, os Deuses e os Homens: O Cosmos Grego e suas Propriedades

A Natureza, os Deuses e os Homens:
O Cosmos Grego e suas Propriedades
Ivan Vieira Neto*
“Vê de longe a vida. / Nunca a interroges.
Ela nada pode / Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Resumo:
O problema fundamental da humanidade sempre foi o seu papel no mundo. Desde o advento da racionalidade sentimo-nos emancipados da natureza, porém dependentes dessa mesma natureza para nos fornecer todo o necessário à sobrevivência. Quando os primeiros homens deram-se conta deste problema surgiu a religião, religare, buscando reestabelecer a ligação entre a humanidade e a potência divina, a divindade. Os mitos narram o que aconteceu a princípio, como foram criados o mundo e os homens e todas as outras coisas. Portanto, toda mitologia conta histórias da criação, do processo. A maneira como o processo é concebido nos informa sobre o imaginário de determinada sociedade, os mitos trazem elementos que muito nos dizem sobre esse imaginário e como este é representado. Neste artigo pretendemos analisar a representação do mundo para os antigos gregos, para nos aprofundar na questão do imaginário helênico sobre os domínios dos deuses e dos homens, da vida e da morte.

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Abstract:
The most ancient question in the human spirit is about our place in the world. Since we became rationals we’ve felt as we were not more along with the nature as one, even while our dependence of the nature to survive haven’t desappeared. When the first men thought about this problem religion was created as religare, as an attempt to reestablishing the conection between the human kind and the divine potence, or God. That’s the reason why the myths tell us what happened in the begining, how the world, the men and everything else were created. Every mythology is about the process of creation. The way how this process is done gives us a great information about specific society’s imaginary and it’s representations. In this article our propose is to analise the greek’s representation of their world, arguing the helenic imaginry on the domains of gods and men, life and death.

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A epígrafe deste artigo traz duas estrofes de um poema de Fernando Pessoa, escolhido por tratar de uma questão fundamental no interior da mitologia grega: o que distingue deuses e homens? Segundo o poeta, a divindade dos deuses deve-se ao fato destes não se pensarem. “Os deuses são deuses porque não se pensam”, e não se pensam porque são deuses. O argumento principal, portanto, é este: os deuses são. Pois o ser dos deuses é o ponto principal da sua distinção. Há uma maneira fácil e lógica de elucidar a diferença entre deuses e homens na língua portuguesa, utilizando os verbos ser e estar. Enquanto os deuses “são”, os homens “estão”. Nisto reside todo o problema.
Qualquer um que tenha se ocupado da Ilíada e da Odisséia entende que o seu autor se preocupou em contar uma história sucedida no mundo humano, levando os homens à desgraça ou à glória. Mas também é perceptível a influência que os deuses exercem neste mesmo mundo humano. Afinal, embora os versos da Ilíada tratem da guerra de Tróia e a Odisséia conte as desventuras de Odisseu no retorno à sua pátria, o enredo é decido pelas divindades. As contendas e vontades dos deuses influenciam todo o curso da vida humana na Terra. A própria narrativa, o ato de decidir contar os eventos que levaram os helenos a sitiar Tróia ou que mantiveram Odisseu afastado de casa por vinte anos, está relacionada aos deuses. Os poetas são inspirados pelas Musas, as belas e divinas regentes das Artes, da Astronomia e da História.
Temos aqui, portanto, o nosso problema. Os homens residem num mundo que não governam. Giulia Sissa e Marcel Detienne, em seu livro Os deuses gregos, analisam as relações entre deuses e homens no quotidiano da Grécia Antiga. Este livro divide-se em duas partes, das quais a primeira, redigida por Giulia Sissa e intitulada Homero antropólogo, nos interessa neste ponto. A autora afirma que na Ilíada não há qualquer alteridade entre helenos e troianos, apesar destes últimos serem considerados bárbaros. Tanto uns quanto outros falam a mesma língua, têm as mesmas tradições, respeitam os mesmos costumes e adoram as mesmas divindades. “Comparados com eles, numa visão global, os imortais é que produzem efeito de nação heterogênea” (SISSA: 1990, p. 32).
Esta heterogeneidade que divide deuses e homens está associada ao processo de criação do mundo, que legou a uns e outros características ontologicamente distintivas. O mundo emergiu do Caos (Χάος), espaço vazio ou abismo, quando nasceram as primeiras divindades: Gaia (Γῆ), Érebos (Ἔρεβος), Éther (Αἰθήρ), Nyx (Νύξ), Hémera (Ἡμέρα) e Tártaros (Τάρταρος). De acordo com sua substância, todos se dispersaram sobre o espaço, mas continuaram unidos para dar forma ao mundo. O mundo imaginado pelos gregos encerra-se a si mesmo, se fechando em um círculo como um ouroboros.
Por sua densidade, a Terra (Gaia) ocupa o centro deste mundo, estando cercada por Pontos (Πόντος), o Mar, e Oceanos (Ὠκεανός), o grande rio que circunda o mundo. Estava ainda limitada acima por Uranos (Ούρανός), o Céu, e abaixo pelo Tártaros. Acima do Céu estava a abóbada do Éther, a Luz. Abaixo do Tártaros, nas profundezas da Terra, estendia-se o Érebos, as Trevas. Gêmeas e consortes de Éther e Érebos, Hémera e Nyx eram as deusas que personificavam respectivamente o Dia e a Noite, revezando-se em suas carruagens sobre a abóbada celeste, alternando sobre a Terra um período de luminosidade e um período de escuridão. Este é o mundo grego, no qual a Terra ocupa o centro, o ponto de equilíbrio, entre a Luz e as Trevas. Nas palavras de Jean-Pierre Vernant:

À confusão e à tenebrosa indistinção de Caos opõem-se a nitidez, a firmeza e a estabilidade de Gaia. (…) A Terra negra se estende entre o baixo e o alto; entre, de um lado, a escuridão e o enraizamento no Abismo, representado em suas profundezas, e, de outro, as montanhas encimadas de neve que ela projeta para o céu, montanhas luminosas cujos picos mais altos atingem a zona celeste continuamente inundada de luz (VERNANT: 2000).

No imaginário grego, portanto, formatava-se um mundo no qual se distinguiam três realidades, das quais a Terra era a intermediária. Como ponto de encontro, a Terra estava sujeita às influências dos dois outros níveis. Sustentados pela firmeza da Terra, desde muito cedo o Éther e o Érebos tornaram-se morada das divindades que nasceram nos primórdios, consoante a inclinação de cada divindade para habitar nos Céus ou nos Infernos. Precisamos fazer um breve adendo para explicar tais inclinações.
Os gregos propriamente ditos não habitaram a Grécia desde sempre. Sucintamente, podemos afirmar que os primeiros habitantes daquela região foram comunidades autóctones genericamente conhecidas pelo termo “egenos”, porque se tratavam de comunidades que floresceram em localidades banhadas pelo mar Egeu. Sabemos que essas comunidades ocuparam parte da Península Balcânica, mas foi principalmente nas ilhas (Cíclades) que estas populações se estabelceram.
Essa cultura ainda é pouco conhecida, mas sabemos que a base da sua economia eram a agricultura e a criação de animais, especialmente bovinos e caprinos. Talvez esta seja uma das razões do seu culto religioso centralizar-se em uma figura feminina associada à fertilidade dos campos e fecundidade dos homens e dos animais. A essa deusa-mãe agrícola associava-se um deus taurino (GUIRAND, 1935).
Os próximos habitantes dos Bálcãs e das Cíclades são invasores indo-europeus, que chegaram à região em diferentes fluxos migratórios. Conhecedores da metalurgia do bronze, domadores de cavalos e militarmente organizados, os indo-europeus eram um grupo nômade que há muito havia se dissolvido em certo número de populações que se espalharam desde a Europa até a Índia. Os eólios, jônios e dórios chegaram à região que mais tarde seria a Grécia há mais de três mil anos, quando enfrentaram e venceram as comunidades egenas e lhes impuseram a sua cultura.
A religião dos indo-europeus tinha como principal divindade um deus do Céu, diurno e solar. Portanto, sua cosmovisão estava relacionada a uma divindade que estava no alto, que regia o mundo a partir de cima. Os indo-europeus tinham por isto uma noção bem estabelecida de hierarquia, e por isso sua organização social obedecia a uma ideologia tripartite que definia a função de soberania (jurídica e religiosa), a funcão militar e a função campesina, respectivamente responsáveis pela administração, defesa e produção de alimentos e utensílios. Há ainda o culto aos mortos, especialmente aos guerreiros mortos (TERRA: 2001). Este é o legado indo-europeu aos antigos gregos.
Dessa forma, o sentimento religioso grego foi construído sobre as duas culturas que precederam a cultura helênica. O deus-Céu e a deusa-Terra foram unidos pelo matrimônio: Urano e Gaia, Cronos e Réia, Zeus e Hera. Desenvolveu-se tanto um ritual cívico, que obedecia à hierarquização indo-européia, quanto ritos rurais, nos quais os cultos egenos realizados em locais sagrados continuaram sendo praticados. Havia também a preocupação com a morte e com os rituais funerários, que deveriam ser realizados corretamente a fim de que o morto pudesse encontrar descanço do outro lado.
Entretanto, a mitologia nos mostra que esta associação entre as tradições egena e indo-européia não aconteceu da maneira mais fácil. Todas as divindades do panteão grego foram revisadas, são uma versão helênica daquilo que fora sua condição anterior. Os deuses egenos e indo-europeus foram transformados em deuses gregos, mas ainda precisaram enfrentar tudo o que não pôde ser completamente helenizado. Portanto, os princiapais expoentes dos deuses helênicos, isto é, os Olímpicos, tiveram que guerrear contra outras divindades, que simbolizavam a condição animista da cultura pré-grega representantes das forças indomadas da natureza: os Titãs e os Gigantes.
A cosmogonia grega precede a teogonia, as divindades só vieram a existir depois que o Cosmos havia criado a si mesmo. Para serem os soberanos do mundo, os deuses precisaram conquistá-lo. Somente depois de enfrentar e vencer as forças primitivas da Natureza é que os deuses puderam estabelecer sua ordem sobre o Cosmos.
A religião grega conservou um traço animista recorrente na religiosidade egena. A Terra, o Céu, o Mar e as Montanhas eram, a um só tempo, Natureza e divindades. Devido a este motivo, foram considerados os primeiros deuses. As divindades antropomórficas indo-européias precisaram destroná-los, como fez Cronos ao castrar Urano. Por sua vez, os Olímpicos, deuses gregos propriamente, precisaram vencer os Titãs para assegurar a sua soberania sobre todas as coisas.
Também as florestas, fontes e rios foram divinizados, habitados por espíritos que representavam a Natureza em constante atividade. Os sátiros e as ninfas eram os mais comuns dentre eles. A humanidade só veio à luz posteriormente, os homens só vieram a existir depois que o mundo estava estabilizado. Nos tempos de paz, na Era de Ouro anterior à guerra entre Cronos e Zeus, a humanidade vivia perto dos deuses e todos tomavam parte nos mesmos banquetes e festins.

Naquele tempo, (…) não havia nascimento no sentido próprio da palavra. Talvez surgissem de Terra (…). Naquela época, os homens, sempre jovens, não conheciam o nascimento nem a morte. Não padeciam do tempo que deteriora as forças, que faz envelhecer. Ao fim de centenas, talvez de miríades de anos, sempre semelhantes ao que eram na flor da idade, eles adormeciam, desapareciam como haviam aparecido. Já não estavam mais lá, mas não era propriamente a morte (VERNANT: 2000).

A Teogonia de Hesíodo, contada por Jean-Pierre Vernant, apresenta uma curiosa peculiaridade quanto à humanidade: de todas as coisas criadas, os homens são os seres mais propensos a entrar em desgraça, a sucumbirem à corrupção. Justamente por isto, a existência da humanidade transcorreu em estágios. O primeiro deles é a Idade de Ouro, anterior às guerras divinas. Em sucessão, existiram a Idade de Prata e de Bronze. Finalmente, a derradeira era dos homens é a Idade do Ferro (ou Heróica), tempo em que a humanidade está completamente corrompida e desesperançada.
E se não bastassem as batalhas que os deuses enfrentaram contra outros deuses e contra os fortes e gigantescos filhos da Terra, uma última disputa ainda precisava ser enfrentada. Os deuses retiraram-se para o Céu, construíndo suas habitações nos cimos iluminados do monte Olimpo. Era preciso exigir dos homens um culto em seus templos, que seriam realizados mediante sacrifícios. Mas os homens, liderados pelo ardiloso Prometeu, trapaceram os deuses e conduziram-nos a escolher a pior parte dos animais sacrificados, as entranhas e os ossos. Os homens ficaram com a parte comestível.
Esse Prometeu também roubou o fogo celeste e entregou-o aos homens, pelo que todos foram castigados. No Cáucaso, Prometeu está acorrentado a um rochedo onde a águia de Zeus o visita diariamente para comer seu fígado, que se regenera durante a noite para ser novamente devorado no dia seguinte.
Mas o pior dos castigos restou aos homens. Pandora, a primeira mulher, foi construída por Hefestos a mando de Zeus. Athena e Aphrodite a dotaram de inteligência e de sedução, as Horas cobriram-lhe o corpo com vestes e adornos delicados. Hermes, o mensageiro dos deuses, levou-a à Terra e deu-lhe como esposa a Epimeteu, irmão de Prometeu. Consigo, Pandora levou um vaso que continha inúmeros males, o qual foi entregue a Epimeteu. Segundo Erwin e Dora Panofsky, o mito não é claro quanto a qual dos dois foi o responsável pela abertura do vaso, mas o importante é que ele foi aberto e disseminou todos os males pela Terra (PANOFSKY, 2009). Apenas a Esperança permaneceu, presa à tampa do vaso. E assim, tomado por toda a sorte de infortúnios, o mundo dos homens distinguiu-se do mundo dos deuses por completo.
Os homens, que não conheciam a Morte, após este castigo começam a morrer. Realçam-se as diferenças entre os três níveis do Cosmos grego. Os Céus agora são o refúgio dos imortais, os deuses bem-aventurados que vivem para sempre no Olimpo. Enquanto a Terra é legada aos homens que envelhecem e morrerm, o Hades (Infernos) é o abrigo daqueles que já faleceram. Nas palavras de Vernant:

O espaço de cima é completamente diferente daquele do meio e daquele de baixo. O primeiro é o espaço de Zeus e dos deuses imortais, o segundo é o espaço dos homens, o terceiro, o espaço da morte e dos deuses subterrâneos. Mundo com degraus e por onde não se pode passar a não ser em condições especiais, de um ao outro degrau (VERNANT: 1990).

Dessa forma o Cosmos está completamente estabelecido, torna-se um mundo estático no qual existem os imortais, os mortais e os mortos, cada um vivendo no seu espaço. Mas os deuses, que rotineiramente influenciam os assuntos humanos, ainda respeitam uma outra divisão, a partilha que fizeram logo após a contenda com os Titãs. Zeus preside aos Céus e aos fenômenos atmosféricos e reina sobre o Olimpo, Hera é sua esposa e rainha dos deuses; Posêidon é o senhor dos mares e das águas, ao lado de sua consorte Anfitrite; Aidoneu (Hades) é soberano do mundo dos mortos e das riquezas escondidas no seio da Terra. O domínio da Terra é partilhado entre os três irmãos.
Dentre todos os níveis deste Cosmos, o mundo humano é o mais frágil. Estrategicamente posicionada a meio caminho dos outros dois níveis, a Terra está sujeita a todas as influências. Seus campos dependem das divindades agrícolas, seus animais dos deuses da fertilidade e fecundidade. As intempéries atmosféricas de Zeus caem sobre a Terra constantemente. E esporadicamente o chão se agita em maremotos e terremotos causados por Posêidon. As vidas dos homens são guiadas pelo Destino (Moros), dependem das Moiras e da sua tecelagem que decide sobre nascimentos, casamentos e mortes.
Ao contrário dos deuses Olímpicos, os homens não são conquistadores do mundo. Eles nasceram da Terra (terrigena) e devem obedecer àqueles que detêm a soberania do Cosmos por direito: os deuses. A preocupação dos gregos quanto à sua relação com as divindades remonta ao neolítico. É a preocupação humana em reconhecer a(s) força(s) sobre-humana(s) que ordenou o mundo no qual vivemos, buscando entender qual o nosso papel neste lugar durante a nossa vida.
No cerne da religião está o sentimento de que o homem foi há muito destacado da Natureza e não participa dela como os animais, embora ainda dependa do que a Terra produz para a sua sobrevivência. E se o homem é este ser limitado, dependente, certamente deve render cultos aos seres ilimitados e independentes, que dominaram a Natureza e a ordenaram, não necessitando dela para viver para sempre.
É este o sentido do religare, o movimento de retorno que, segundo Mircea Eliade, o homo religiosus empreende rumo ao divino. Se foi a Terra quem gera a raça dos homens, se é ela quem lhes fornece todo o sustento em vida e os acolhe na morte, é devido à interferência daqueles que dominaram a Natureza e tornaram o mundo habitável para si e para a humanidade. Portanto, é este sentimento que conduziu o pensamento dos gregos antigos e definiu o imaginário do mundo.
Concluindo, destacamos que as representações que um povo faz do mundo são também representações de si. Os gregos não só acreditavam que seus deuses haviam tornado o mundo habitável, como também acreditavam que por sua vez, eram os gregos que conduziam o mundo para fora dos limites da barbárie através da sua racionalidade. Com esta crença, os antigos helenos legaram-nos não só uma rica mitologia, mas também a filosofia e as bases para a organização (romanizada, é verdade) do mundo no qual vivemos. O Ocidente recebeu não apenas o seu legado cultural, mas também o legado racional, a civilidade e a democracia dos habitantes da Hélade. No âmago, pensamos como gregos. É por isto que sua literatura ainda nos parece tão familiar.

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Notas
* O autor é Licenciado em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição, recebendo fomento da CAPES para o desenvolvimento da sua pesquisa de dissertação. Pesquisador dedicado aos temas mitologia, religião e filosofia na Antigüidade e Antigüidade Tardia, estuda as influências dos cultos de mistérios e do neoplatonismo no Império Romano, sob a orientação da Profa. Dra. Ana Teresa Marques Gonçalves. Atualmente é um dos editores juniores do periódico eletrônico Revista Chrônidas. Também é membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR) e do Núcleo de Estudos Mediterrânicos (NEMED), ambos vinculados ao CNPq.

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O mito heróico: compreendendo as múltiplas variáveis na construção da imagem do herói

O mito heróico: compreendendo as múltiplas variáveis na construção da imagem do herói
Graduando Rodrigo Santos M. Oliveira1

O estudo e o entendimento do que seja o mito não pode ser tratado como algo estável e paralisado pela ação do tempo. Percebemos que este, se desloca de maneira atemporal, modificando-se de acordo com a sociedade que o narra. Através deste pensamento desenvolvemos este texto, para podermos compreender a formulação mítica que origina o caráter do herói. Escolhemos para a realização deste projeto o herói Perseu, o qual iremos analisar, demonstrando os principais acontecimentos dentro de sua jornada iniciática.

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O mito se reinventa de maneira constante e perceptível, sendo esta característica a responsável pela sua propagação e manutenção ao longo do tempo. Através desta idéia, tentaremos discorrer acerca do processo mítico que a narrativa heróica sofre, e ainda o papel do herói na formação do pensamento do “homem antigo”. Apoiaremo-nos em duas bases teóricas que se assemelham, mas que apresentam algumas características diferenciadas: a primeira será a do autor Junito de Souza Brandão contida em sua obra “Mitologia Grega: Volume III”, e a segunda de Joseph Campbell abordada em seu livro “O herói de mil faces”, ambos discutindo sobre a formação de uma concepção do que seja o herói. O mito escolhido como pano de fundo da discussão que realizaremos será o do herói Perseu, pois este é um modelo heróico que mostra, se não todas, grande parte das características levantadas pelos dois autores, na construção de um modelo heróico.
Iniciaremos este trabalho tentando entender o que é o mito e o que ocorre durante sua formação, pois não podemos aprofundar na discussão que estamos propondo sem antes conhecer a base das diversas formulações teóricas que serão apresentadas neste trabalho. Em uma análise superficial acerca do que seja o mito, sabemos que, de acordo com Walter Burkert (1991), este se mostra como uma “forma de relato tradicional estruturado numa seqüência de ações executadas por ‘agentes’ antropomórficos, sendo a modalidade mais remota e difundida de ‘falar dos deuses” no mundo antigo, com suas raízes na tradição oral’. Observamos nesta colocação, a importância da oralidade para o “homem antigo”. Os relatos orais serviam como objetos indiscutíveis para a formação e compreensão da sociedade. O mito torna-se fruto destes relatos, designando “uma história sagrada” (ELIADE, 2000, p.11) que realiza uma narrativa iniciada em tempos primordiais, manifestando uma realidade que passa a existir. Devemos entender que o mito apresentado formulou-se de uma constante variável, ou seja, não houve uma formulação chave que desencadeou a aparição do mito e sim suscetíveis modificações ocorridas pela oralidade, comportando-se então como a suma dessas variantes. A origem dos mitos se dá pelos relatos orais que unidos formam um corpo, ou seja, o próprio mito.
O mito sobrevive apenas se continuar a ser contado. Enquanto o relato poético não se modifica com o passar do tempo, o mito se transforma de acordo com os autores e o tempo, possibilitando a compreensão da “realidade” vivida pelo grupo que ouve e que conta essa nova formulação mítica. Há diferentes tipos de relatos, de acordo com Vernant (2000), que devem ser entendidos para compreender qual o papel do mito nas sociedades antigas. O primeiro apresentado é o relato histórico que possuí em sua constituição o compromisso com a verdade, ou seja, narrar apenas o “real”. O relato literário, por sua vez, é formado a partir da utilização da ficção “fantástica” e sua formulação se dá através do talento de seu criador. Por último temos o relato mítico que é construído pela transmissão e pela memória, por ser uma narrativa primordial, de tempos remotos, nos quais não havia autores. A mitologia não é literatura e sim experiência histórica, já que necessita ser contextualizada.
Os mitos não são apenas relatos. Contém tesouros de pensamentos, formam lingüísticas, imaginações cosmológicas, preceitos morais etc. (VERNANT, p.16). As perguntas sobre o que havia antes de existir algo, os gregos responderam através dos mitos. Este se mostra como uma janela para a compreensão da sociedade, pois podemos detectar traços sociais em sua composição, no comportamento das divindades, que espelham a realidade vivida pelos seus autores.
Discernimos neste momento, três conceitos chaves para a compreensão do mito: Oralidade, Memória e Tradição. Como o primeiro conceito já foi abordado anteriormente na questão de sua inserção na formação mítica, trataremos, por tanto, apenas os dois últimos. A memória se torna importante para a compreensão do mito, pois esta é compreendida a partir de um escrito, ou através da oralidade, empregando em sua concepção um caráter ideológico, ou seja, a vontade de um grupo. Como bem define Halbwachs (1990), a memória é formada por um grupo e sua interpretação dos fatos, portanto, pelas suas lembranças, as quais formam o que o autor denomina de memória coletiva. Verificamos desta maneira que o mito se comporta como resultado desta memória: a formação da narrativa mítica se dá pela impressão de seu criador, pelas lembranças e pela conjuntura em que vive.
Desta maneira, a memória tenta resgatar o que foi produzido na tradição. Mas o que seria essa tradição? Utilizaremos da idéia de construção coletiva de costumes e práticas, que ao serem realizadas ou/e seguidas como referência tornam-se modelo tradicional. O mito utiliza-se da tradição do grupo em que foi cunhado, sendo a memória inerente na formação mítica. A tradição ritualiza certos acontecimentos e costumes, realizando desta maneira a junção da memória com o mito, sendo que estase modifica atendendo os anseios e necessidades expressivas do grupo em que ocorre sua formulação.
O mito mostra-se a partir das variantes, sendo que suas formas de expressão não se encontram apenas ligadas aos relatos religiosos, de acordo com Junito (1995), mas também às literaturas, poesias e artes figurativas, consideradas pelo autor como formas profanas. Esta afirmação nos é contestável, pois não podemos definir estas formas artísticas como de algo profano, sendo que a religião é intrínseca a formação do homem antigo clássico, dentro de todas as instâncias sociais. As artes também tinham sua porção religiosa, o que não as permite ser separadas pela categoria de profanas e sagradas no mundo antigo.
Porém há outra separação, na qual o mito se encaixa, de acordo com Eugênio Triás (2000): O que seria religio e superstitio? A expressão religio, dentro do Império Romano, se liga a idéia de culto oficial, sendo a religião a ser seguida, na qual, devem ser feitos os cultos e ritos necessários para responder às exigências divinas. Já a superstitio simboliza a “superstição”, produzida pelo processo de helenização, sendo a mitologia encaixada dentro desta idéia. Porém o mito reflete a religião, mas não a segue formalmente, já que sua produção é bem anterior à formação de cultos institucionalizados.
Observamos então que o mito possui uma característica funcionalista, qual seja, de fundamentar “os usos e as normas básicas do convívio, propondo uma justificação narrativa tradicionalmente aceita por todos”, pois de cumprir nas culturas antigas “uma função indispensável; expressa, acentua e codifica a crença; protege e reforça a moral; vigia a eficiência do ritual e de certas regras práticas para a orientação do homem” (GRIMAL, 2000). O mito, então não seria apenas uma fábula, e sim um modo pragmático de compreensão social privilegiadora da sabedoria moral. Além disso, a mitologia adquire um caráter simbólico realizando uma contraposição entre fantasia e realidade, pois o mito torna-se representação do real. Então classificamos que há uma materialização do imaginário, enquanto estrutura mental, na formação do mito, pois este imaginário, utilizando-se de uma imagem representativa do real, muitas vezes se reporta aos interesses sociais de certo período. Assim como aponta José D’ Assunção Barros (2004), o imaginário pode se transparecer a partir de um interesse ideológico:

as imagens, as cosmovisões e os símbolos podem ser produzidas também por circunstâncias políticas, por necessidades sociais e até locais, por artimanhas da poesia e da literatura, por arquitetura política pensada ou intuída, ou podem mesmo ser ocasionadas por grandes eventos que caem como raios na vida das sociedades. (ASSUNÇÃO, p. 97, 2004)

O mito então, “não fala senão naquilo que começou realmente, naquilo que se manifestou completamente, as personagens do mito são seres sobrenaturais” (ELIADE, 2000).
A compreensão do que seja o mito, nos faz avançar para o entendimento da narrativa mítica do herói. Seu nascimento, sua jornada e a conclusão de sua “missão” fazem parte do processo de formação do mito, sendo o herói protagonista entre os homens. Como mostra Hugo Francisco Bauzá (1998), o herói demonstra algumas características particulares que o destacam do restante dos seres humanos. Utilizaremos a descrição sobre o herói que Brandão (1995) faz baseado nos estudos de Rank, no qual é criada uma “lenda-padrão do herói”:

(…) o herói descende de ancestrais famosos ou de pais da mais alta nobreza: habitualmente é filho de um rei. Seu nascimento é precedido por muitas dificuldades, tais como a continência ou a esterilidade prolongada, o coito secreto dos pais, devido à proibição ou ameaça de um Oráculo, ou ainda por outros obstáculos (…). Transcorrida a infância, durante a qual o adolescente, não raro, dá mostras de sua condição e natureza superiores, o ‘futuro herói’ acaba descobrindo, e aqui as circunstâncias variam muito, sua origem nobre. Retorna à sua tribo ou a seu reino, após façanhas memoráveis, vinga-se do pai, do tio ou do avô, casa-se com uma princesa e consegue o reconhecimento de seus méritos, alcançando, finalmente, o posto e as honras a que tem direito. (…) o fim do herói é comumente trágico. (BRANDÃO, 1995, p. 21)

Como podemos notar, é construído pelo autor um modelo de herói, mas sem ignorar as variantes existentes, sendo que algumas características não permanecem em todos os exemplos heróicos. O caminho do herói mostra-se cheio de nuanças, pois este sofre com a missão que lhe foi confiada, sendo, desde o nascimento, aguardado para cumprir uma profecia. O herói segue um processo durante sua peregrinação que compreende em se separar do mundo, penetrar em alguma fonte de poder e em seguida retornar à vida, pois desta maneira todos poderão usufruir de suas conquistas. Além disto, procedimentos como, corte de cabelo, mudanças de nome, catábase ao Hades tornam-se parte do caminho iniciático do herói para que este receba a glória. Muitos autores comparam a jornada do herói em busca de sua ascensão com o caminho que o jovem passa para atingir a fase adulta, pois alguns procedimentos se entrecruzam. Ocorre desta maneira, a maturação do herói da mesma forma que a jornada empreendida pelo jovem o amadurece e o fortifica deixando-o apto para a vida adulta. A peregrinação heróica lhe deixa preparado para receber a recompensa pelos seus feitos.
Ao longo de seu percurso, o herói sofre com as diversas provas que lhe são incumbidas, geralmente pelas divindades, sendo estas necessárias para a realização de sua ascensão. Este personagem mítico está ligado às lutas (trabalhos) mais do que as divindades, pois correm riscos reais de morte, enquanto os deuses apenas sofrem feridas que são facilmente curadas. Geralmente, o herói luta contra monstros, feras, bandidos, sendo estes grandes desafios à provação heróica, pois ele “é uma personagem especial, que sempre deve estar preparado para a luta, para os sofrimentos, para a solidão e até mesmo para as perigosas catábases à outra vida” (BRANDÃO, 1995, p.51).
A última fase pela qual o herói passa se baseia na sua morte, ou seja, na sua queda ao Hades, realizando a mortificação ritualística que se compreende na absoluta solidão. A morte lhe concede a condição que tanto busca, pois a partir dela, o herói adquiri sua forma sobre humana. O herói se torna um intermediário entre os homens e os deuses, não se comparando ao status divino por não ser imortal, mas possuindo ação mesmo depois de morto: “A morte simbólica do herói converte-se, por assim dizer, na consecução da maturidade” (BRANDÃO, 1995)
Joseph Campbell, grande pensador, realizou uma profunda interpretação, com base na psicanálise, do mito do herói, tendo como referência C. G. Jung. Em seu livro “O herói de mil faces” Campbell constrói um arquétipo heróico, selecionando as variáveis e realizando um trabalho, no qual, edifica a imagem do herói. Sua tese principal reside no entendimento de que “o herói simboliza nossa habilidade para controlar o animal irracional que habita em nós” (CAMPBELL, p.15-16). O próprio Junito se baseia nos estudos que Campbell realiza, por isso observamos que os dois autores têm idéias semelhantes acerca do mito heróico.
O exemplo que utilizaremos para perceber todo este processo será o do herói Perseu. Este tem origem argiva e tem como antepassado outro herói: Héracles. É filho de Zeus e por parte de mãe descende de Dánao e de Egisto. Como destacado anteriormente, o nascimento de Perseu é previsto pelo oráculo que fala ao seu avô, Acrísio, sobre o risco de morte que corria com o nascimento de seu neto. Para se prevenir, Acrísio prende sua filha, Dânae, em uma câmara de bronze subterrânea. Porém esta medida não é o bastante, pois Zeus em forma de chuva de ouro penetra na câmara e engravida Dânae. Junito analisa essa passagem da seguinte forma:

No tocante à chuva de ouro com que Zeus fecundou a Dânae, trata-se, simbolicamente, do esperma de Céu, fecundado a Terra: um hieròs gamos, um casamento sagrado, que se transforma num thaleròs gamo, numa ‘união fértil’, uma ‘conjunção amorosa’ entre um deus fecundador, Zeus, e uma grande mãe, Dânae. (BRANDÃO, 1995, p.80)

Além desta interpretação do mito, Grimal (2000), coloca que a simbologia desta chuva de ouro designa a beleza e o apreço que este exercia nos homens, sendo o ouro capaz de “de abrir as portas mais aferrolhadas”. Após descobrir que havia nascido seu neto, Acrísio, prende Dânae e Perseu em uma urna de madeira e os joga ao mar. Outra analogia foi realizada por Junito com esta passagem: a arca se destaca como formadora do herói, quando comparada ao útero materno que gera a criança e a fortifica, preparando-a para a vida. Ao sair da urna, o herói esta pronto a viver sua independência alcançando a fase adulta, assim como o filho que se desprende dos laços maternos.
Perseu é resgatado por um pescador, Díctis que o cria até se transformar em um jovem valente. Quando já estava grande, Perseu foi mandado para sua primeira missão: arrancar a cabeça de Medusa e traze–la ao rei Polidectes. O herói é auxiliado pelas Gréias e por divindades (Hermes e Atena), conseguindo completar sua missão. Outra característica que podemos destacar do percurso heróico é a ajuda que este tem de seres superiores. As provações que ele passa são amenizadas e auxiliadas pelo poder divino. No caso de Perseu, o herói recebe sandálias com asas, uma alforje, o capacete de Hades e a espada afiada de Atena. Ao cortar a cabeça da Medusa brotaram do sangue Pégaso e o gigante Crisaor.
Voltando de seu trabalho, Perseu passa pela região de Etiópia onde encontra Andrômeda acorrentada a uma grande rocha. O herói apaixonado por ela se dispõe a salva-la e sem grandes dificuldades, com o auxílio das armas mágicas que possuía, destrói o monstro. Como sua recompensa, Perseu exige Andrômeda em casamento, porém isto causaria uma contrariedade, já que Fineu, tio de sua amada, também a queria em casamento. O herói utiliza a cabeça da Górgona e petrifica todos os seus inimigos, indo para Serifo acompanhado de Andrômeda. Ao chegar, e se deparar com o desespero de sua mãe que fugia das investidas do rei Polidectes, Perseu utiliza mais uma vez a cabeça da Górgona e petrifica todos os seus inimigos, dando o reino para Díctis, o pescador que o salvou. Após isso, o herói devolve as armas que conseguirá e entrega a cabeça de Medusa para Atena que a põe em seu escudo.
O herói passa então por todas as provações e consegue a recompensa divina no final de sua jornada. O modelo heróico construído pelos mitólogos abrange todas estas passagens sendo o herói, assim como já explicitado, um modelo social, seguido e almejado pelos grandes líderes, da Antiguidade Clássica até a Contemporaneidade.

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Notas
1Orientando da Profa. Dra. Ana Teresa M. Gonçalves, desenvolve pesquisa na área de História Antiga desde 2008. Integrante dos grupos de pesquisa LEIR e NEMED. Contato: rodrigo.sm.oliveira@gmail.com

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Referências Bibliografia:

• Fonte:
APOLODORO. Biblioteca. Tradução de Margarita Rodríguez de Sepúlveda.

• Bibliografia Geral:
BARROS, José d Assunção. O Campo da História- Especialidades e Abordagens
, Petrópolis: Editora Vozes, 2004.
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BRANDÃO, J. de Souza. Mitologia grega: preliminares. In: Mitologia Grega (Vol. I, III). Petrópolis: Vozes, 1986.
BURKERT, Walter. Antigos Cultos de Mistério, São Paulo: Edusp, 1991.
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GRIMAL, P. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
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TRÍAS, Eugenio. Pensar a religião: o símbolo e o sagrado. In: DERRDA, J.; VATIMO, G. (Org.). A Religião. São Paulo: Estação Liberdade, 2000
VERNANT, Jean Pierre. O universo, os Deuses e os Homens. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Deusas e deuses do século XXI

Deusas e deuses do século XXI
– A força de Wottan e Zeus como controladora dos corações dos homens -
Por Ana Curcia

Resumo: Será mesmo que as antigas crenças pagãs em Wottan da mitologia nórdica e Zeus da mitologia grega foram esquecidas? Venho neste artigo propor um retorno forte a velhas crenças da humanidade, ainda que de uma forma diferente em um certo ponto de vista. Para esta reflexão faço uso das contribuições do dr. Sigmund Freud.
Abstract: Will be the truth that the ancient believers on Wottan from nordical miths and Zeus from greek miths were forgotten? I come on this article to propose a strong return to the ancient believers os humanity but in a different way in a certain point of view. To this reflection I use doctor Sigmund Freud contributions.

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Dizer que as antigas crenças pagãs se perderam com o advento do cristianismo como religião dominante não deixa de ser uma simples tentativa de encobrir a força e o poder dos deuses de um velho mundo. Não sei se é correto o que farei neste artigo, mas pretendo traçar alguns paralelos entre Zeus – da mitologia grega – e Wottan (Odin) da mitologia nórdica. Meu principal objetivo é deixar claro o quanto a personalidade de um determinado tipo de deus sobreviveu por muito tempo, inclusive no Antigo Testamento. Eu, particularmente, nunca tinha entendido a devoção extrema que os seres humanos tinham pela personalidade extremada desses deuses. Mas, neste ponto, pretendo trabalhar algumas contribuições da ciência psicanalítica de Sigmund Freud. Este adorava esmiuçar mitologias e grande parte de suas teorias estão calcadas na base de uma famosa história da mitologia grega: a de Édipo Rei.
Para iniciar é preciso relembrar alguma coisa da Grécia em si e as suas contribuições à civilização ocidental. A Grécia de Zeus era constituída por cidades – Estado e a maioria predominante de suas festas e celebrações cotidianas eram dedicadas em homenagem aos deuses. Estes viviam no Olimpo e, na verdade, toda a história era originada de combates cruéis entre pai e filho. Zeus, instigado pela mãe Terra, destronou seu pai – espírito cruel e que engoliu um por um dos seus filhos. Quando Zeus triunfou, fê-lo regurgitar cada um de seus irmãos. Sendo assim, Zeus era o deus supremo por direito.
Mas, diferente do conceito de deus para os cristãos, Zeus se aproximava dos humanos em diversos sentidos, inclusive em suas necessidades sexuais. Diversas histórias e heróis gregos originaram-se da relação de Zeus com uma humana. E isso, de modo algum, interfiria na credulidade das pessoas. Pelo contrário, desrespeitar qualquer um desses deuses ou esquecer-se de prestar as devidas homenagens ou agradecimentos resultava em punição e desgraça imediatas.
Histórias como a de Tróia deixam claro o quanto o povo grego era guerreiro. Pode-se dizer que Zeus era um deus também um tanto quanto violento. Certa vez, quando um dos filhos de Apolo pegou o seu carro e tentou fazer a rota do sol pelo planeta e, ao invés disso, causou caos e destruição pelo globo, Zeus não exitou e jogou um de seus raios e matou o pobre garoto.
De uma certa forma, vejo como se cada deus de uma nação trouxesse incorporado a personalidade do seu povo. Por isso, não se pode dizer que há deuses cruéis ou que é uma tola criação de povos primitivos. Esses deuses, na verdade, representam ideais ou necessidades das pessoas as quais servem.
Zeus começou o seu domínio salvando aos seus irmãos e sua vida destinava-se a acompanhar a vida dos humanos e, por que não, a espioná-los? Diversas vezes já li em reproduções das lendas gregas a frase: ”Os deuses nos invejam, isso porque cada momento nosso é unico e nunca mais poderemos tornar a vivê-los“. De certa forma, é verdade. No Olimpo, havia uma verdadeira disputa pelo poder e pela eternidade. Zeus vivia sempre com medo de sua ciumenta e implacável mulher. Diversas amantes que ele muito gostava foram mortas ou perdidas por interferência daquela. Hermes, diversas vezes, teve que ser o salvador de seu pai Zeus. Em uma de suas diversas aventuras amorosas, o deus dos deuses teve que pedir a ajuda de seu filho para encontrar sua amante que tinha sido transformada em uma ovelha por sua mulher.
Mas o que sustentou Zeus em seu posto de deus dos deuses por séculos? Sem dúvida, é uma pergunta de difícil resposta. Teria sido sua capacidade de lançar raios ou talvez sua incrível proximidade com os humanos? Talvez ele tivesse maior força e poder que os demais deuses? Ou ainda o universo se lhe tivesse revelado mais segredos que aos demais?
Sinceramente, não aposto em nenhuma das opções acima. Muito pelo contrário. As diversas possibilidades que levantei funcionariam muito mais como uma fraqueza à sua posição que o contrário.Ser próximo aos humanos, por exemplo, pode ser entendido como um rebaixamento da sua posição divina. Lançar raios pode ser algo incrível para um ser humano, mas para todos os deuses – inclusive aqueles que não viviam no Olimpo – poderia não significar tanto assim. Coloquemos a questão da seguinte forma: se houvesse uma rebelião entre os deuses e eles decidissem depor a Zeus – quem iria impedir? Aí está: ninguém….exceto as crenças dos humanos. Teoricamente isto parece ser um tanto quanto inexplicável. Porém, mais adiante, entenderemos de que forma o doutor Sigmund Freud entendeu os quesitos inconscientes que formam a base destas crenças.
Porém, ao investigar as diversas crenças politeístas depois da mitologia grega, é possível perceber o quanto parece existir uma influência direta desta mitologia. Por exemplo, os povos germânicos e nórdicos crêem em Odin ou Wotan; os indíos norte-americanos crêem em uma série de entidades da natureza e, também, nas suas personificações em forma de animais; os povos africanos acreditam em orixás que, de determinadas formas, também incorporam os poderes naturais; as wiccas modernas são adeptas à crença de que o poder da deusa e do deus cornudo se manifesta diretamente na natureza e, enfim, tantas outras. De alguma forma, as religiões tendem a ter um caráter de domínio do homem e, também, esses deuses tendem a assumir uma personalidade dominadora e poderosa. Questionar essas premissas é um intuito que tenho para o final deste artigo.
Por hora, no entanto, decidi escolher para um breve estudo uma outra mitologia que, ao meu ver, possui grandes semelhanças com os mitos gregos. Sendo os povos germânicos e nórdicos mundialmente conhecidos pela sua força em batalhas e conquistas de novos territórios, acredito que a sua cultura e tradições fiquem um pouco desprezados em virtude da imagem de povos cruéis e conquistadores. Mas, antes de mais nada, acho fundamental, também, entender um pouco da sua organização política e social.
A sociedade viking era organizada com a prioridade de se colocar a família em primeiro plano. Sendo ela a sua principal fonte de estruturação e organização. De forma que eram constantes as brigas e disputas entre os diferentes clãs familiares. Sendo predominantemente chefiada por membros homens, eram eles que também guerreavam e chefiavam as suas esferas sociais.
Mundialmente conhecidos como guerreiros cruéis e dominadores, a imagem do povo viking foi denegrida pelas suas diversas conquistas. Seus altos navios com desenhos de dragões esculpidos na proa se tornou a imagem do terror durante a Era Viking. A frieza e calculismo do povo nórdico para as conquistas assemelhou-os a demônios conquistadores.
Os famosos capacetes com chifre, apesar de serem de modo consagrado conhecidos como parte da armadura viking, não o eram realmente. Durante o período Romântico, as artes e a música sofreram verdadeiras revoluções de grandes gênios. O tom bucólico, nacionalista e melancólico dominou as produções artísticas. De qualquer forma, a literatura é uma das mais consagradas produções da humanidade e, como tal, foi uma das principais manifestadoras da nova cultura que estava se instalando. No entanto, na música – mais precisamente na música clássica – Richard Wagner produziu inúmeras óperas acerca das conquistas e dominações vikings. De modo a reforçar a nacionalidade e a identidade cultural dos povos nórdicos, Wagner foi um dos compositores que incluiu em sua ópera os tão conhecidos capacetes chifrudos.
A sede de conquistas dos nórdicos foi acalmada após a formação das nações da Dinamarca, Noruega, Finlândia e etc. Com essas instituições, a Era Viking chegou ao seu final. De modo que ao conseguirem se fixar em territórios próprios, estes povos acalmaram a sua sede de dominação e poderio. O enfraquecimento de seus exércitos foi um dos fatores que fez com que os nórdicos se fixassem em territórios próprios e, ao menos, tentassem chegar à defesa efetiva de seus territórios.
Sem dúvida alguma, um dos jeitos de se conhecer melhor e mais profundamente um povo é através da sua religiosidade. Os nórdicos, como alguns outros povos no mundo, possuem uma mitologia própria e a partir dela tiveram suas explicações próprias acerca da origem do universo e da sua convivência em civilização. De qualquer maneira, esta é uma mitologia repleta de força e poder. Há deuses de grande poderio e que, após a instituição do cristianismo entre os povos germânicos e nórdicos, passaram a serem vistos como deuses cruéis e vingativos e que não foram mais vistos como protetores e auxiliadores da humanidade.
Apesar de toda uma imensa gama de deuses nesta mitologia, para falar neste artigo, escolhi exclusivamente falar do pai de todos os deus – Wottan (Odin). Sendo este o deus mais poderoso, era facilmente associado à figura paterna. Snorri Sturluson escreveu no século XIII, no Eda em Prosa islandesa, o seguinte sobre Odin:

“Odinn é o maior e mais antigo dos deuses; ele governa todas as coisas e, não importa o quão poderosos os outros deuses sejam, todos eles servem a Odinn como crianças servem ao pai. Odinn é chamado de Pai de Todos, pois ele é o pai de todos os deuses; ele é também chamado de Valfather porque seus filhos preferidos são aqueles que morrem em batalha. Valholl (Valhalla) é para eles”. (Sangue de gelo, p.179)

Odin possuía morada não apenas em Valhalla, mas também em Ásgard – onde, de seu trono, ele enxerga o mundo todo e consegue acompanhar todos os acontecimentos da vida. Em seus ombros estão os corvos Muninn e Huginn, que sussurram ao deus tudo aquilo que viram e ouviram por todo o mundo. Além disso, a seus pés, há os lobos Geri e Freki, que eram símbolos da gulodice, que acompanhavam Odin em suas caçadas e lutas, alimentando-se dos cadáveres dos guerreiros. Quando o deus vai para a batalha, ele usa uma armadura e elmo de ouro, trazendo nas mãos o escudo e a lança Gungnir, com runas gravadas no cabo, e monta seu famoso cavalo cinzento de oito patas, de nome Sleipnir.
Mas o poderoso Odin não era apenas músculos e força física. Ele também possuia forte ligação com a sabedoria e a poesia. Para adquirir o conhecimento das runas, o deus se feriu com uma lança e permaneceu suspenso na árvore Yggdrasil, o freixo do mundo, onde ficou nove dias agitado pelos ventos.
A imensa sabedoria de Odinn foi, entretanto, adquirida a troca de um olho seu.Seu tio Mimir – guardião da fonte da sabedoria – só permitiu que o sobrinho bebesse de sua fonte se lhe desse em troca um de seus olhos.

“Odinn, na crença dos nórdicos, era o criador da humanidade, detentor supremo do conhecimento, das fórmulas mágicas e das runas. Invocado por ocasião das batalhas, naufrágios, doenças, na defesa contra o inimigo”. (Sangue de gelo, p.181)

Apesar de toda esta aparente recorrência dos mortais aos poderosos deuses nórdicos, é preciso ter em mente também o quanto todos eles eram incrivelmente temerosos. Imaginem como deveria ser, por exemplo, fazer as devidas oferendas e/ou agradecimentos a Wottan? Todas as esferas da vida, inclusive a própria vida, estariam em risco. Era, portanto, um jogo arriscado de poder e glória – e, em geral, os deuses mais pareciam conspirar contra os humanos do que a favor – apesar que Siegfried e Brunhild tiveram, ao contrário, toda a ajuda possível dos deuses e ainda assim viveram uma história de dor, separação e desespero.
Para entrar na parte final deste artigo é necessário entender qual é a representação que pretendo fazer uso de Siegfried e Brunhild. Ambos foram mortais favorecidos por Wottan. O primeiro conseguiu derrotar o temível dragão Fafnir, que guardava consigo o tesouro dos Nibelungos. A outra era Rainha dos Vikings – dona de um poderoso cinturão de força que o próprio Wottan a presenteara. Em parte devido a escolhas erradas e em parte por causa da inveja alheia, estes dois amantes não conseguiram viver uma história de amor feliz. Acabaram separados por feitiços e, depois, pela morte – apesar de todos os esforços e ajuda dos deuses.
Daí o porquê de ser necessário falar de Siegfried e Brunhild ao fazer um artigo homenageando a Wottan. Psicanaliticamente pensando prefiro abordar a visão do narcisismo freudiano para se tratar de um assunto tão intrigante quanto a história de amor e envolvimento dos deuses para com os mortais e vice-versa nas mitologias. Para começar, o narcisismo pode ser definido como o amor que o eu (ego) tem por si próprio.
O narcisismo inicia-se no desenvolvimento psíquico do bebê a partir do momento em que ele começa a sofrer pequenas frustrações nas satisfações dos seus desejos – por exemplo, a mãe não aparece exatamente no momento em que ele a necessita. A partir daí ele inicia a separação entre eu e não-eu. No entanto, os pais investem o eu de seu bebê com todo o amor que eles possuem – segundo Freud é o reviver do próprio narcisismo perdido dos pais. De modo que Freud chama a criança deste período de ”Sua Majestade, o bebê”.
Sofrer este investimento libidinal nesta fase da vida é mais do que imprescindível. Ao longo de toda a vida haverá uma regressão (retorno) a este narcisismo primário nos momentos de maior frustração e feridas narcísicas. Porém, até mesmo as relações amorosas serão ditadas pela maior ou menor fixação que o narcisismo representou para esta pessoa. Indivíduos que conseguem fazer um investimento libidinal no outro de modo relativamente saudável, em geral, preferirão companheiros que ilustrem a imagem ou da mãe protetora (os meninos) ou do pai que protege (as meninas). Todo quantuum de energia investida no outro tem em si, no entanto, um investimento próprio. Tudo aquilo que se ama ou gosta possui, no cerne, uma identificação nossa com uma imagem nossa do exterior.
E a religião como uma das expressões culturais mais fortes do ser humano, naturalmente, traz isto em si. O ser humano vê nos deuses um reviver do seu Complexo de Édipo (amor devotado aos pais) e, sobretudo, uma identificação sua com uma imagem própria de poder e controle que tudo pode e tudo comanda. Não é que os deuses invejem aos homens, mas sim é um desejo inconsciente destes de que sua posição não é ínfima demais e, sim, almejada pelos tão supostamente senhores do universo.
Tudo o que todo ser humano deseja é acreditar que haja esses deuses – quaisquer que sejam – e, sobretudo, que eles querem-lhes bem. Deste modo terão tudo aquillo que desejam mas consideram impossível de obter por conta própria. É por isso que na sociedade contemporânea podemos ver a um retorno das mais diversas crenças pagãs. O desejo narcísico de dominar ao mundo é cada vez mais irascível no coração dos homens e todos precisam, de algum modo, se sentirem poderosos o suficientes para fazer parte do American Way of Life e, também, de fazerem parte, afinal de contas, de algo maior. É frustrante o sentimento de vazio cada vez maior do homen e, sem dúvida, sua aparente impotência de ser feliz dentro do sistema capitalista. Este que somente prega a cura das feridas narcísicas através do TER e nunca do SER. Sem saídas maiores da própria vida, o ser humano volta-se para a religião sem perceber que sua pequenez sempre parecerá maior, tamanho o seu dejo de sempre parecer maior. A pergunta não é se o ovo ou a galinha vieram primeiro e, sim, os deuses ou o desejo de ser deuses dos homens.

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BIBLIOGRAFIA

PAES, Orlando F. Sangue de Gelo.2006. Ediouro.

FRANCHINI, A.S; SEGANFREDO, Carmen. As 100 melhores histórias da mitologia. 2003. Newtec.

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo. 2006. In Escritos da Psicologia do Inconsciente.

A Viagem do Barco de Máel Dúin

Immram curaig Maíle Dúin
(A Viagem do Barco de Máel Dúin)
Traduzido por Endovelicon
PRÓLOGO
Três anos e sete meses durou a jornada no oceano…

Havia um homem afamado entre os Eoganacht de Ninuss (isto é, dos Eoganacht das ilhas Aran); seu nome era Ailil do “Gume de Batalha”. Um soldado poderoso ele era, e um herói, senhor de sua própria tribo e povo. E havia uma jovem freira, a prioresa de um convento de freiras, com a qual ele se encontrou. Entre eles geraram um nobre menino, Máel Dúin, filho de Ailil.
Este foi o modo pelo qual a concepção e o nascimento de Máel Dúin vieram a ocorrer. Uma vez o rei dos Eoganacht partiu num ataque a outro distrito e província e com ele foi Ailil do Gume de Batalha. Eles apearam e acamparam num terreno por lá. Havia um convento de freiras próximo daquele terreno. À meia-noite, então, quando todo o acampamento havia se aquietado, Ailil foi ao convento. Era a hora na qual a (mencionada) freira ia soar o sino para as noturnas. Ailill pegou-a pela mão, e a jogou ao solo, e se deitou com ela.
A mulher disse a ele: “Não é bendita nossa condição”, disse ela, “(pois) este é o tempo de concepção para mim. Qual é a tua raça e qual é o teu nome?”
Disse o herói: “ Ailill do Gume de Batalha é o meu nome (e eu sou) dos Eoganacht de Ninuss em Thomond”
Então depois de atacar e tomar reféns, o rei voltou ao seu distrito, e Ailill foi com ele.
Pouco depois que Ailill chegou à sua tribo, bandoleiros de Leix o abateram. Eles queimaram (a igreja chamada) Dubcluain com ele.
Ao final de nove meses a mulher deu à luz um menino, e lhe deu um nome, Máel Dúin era ele. O menino foi depois levado em segredo a amigos dela, e até à rainha; e por ela Máel Dúin foi criado; e ela disse que ela era a sua mãe.
Assim a mãe adotiva o criou e aos três filhos do rei, em um só berço, em um só seio, e em um só colo.
Bela, em verdade, era sua forma; e era duvidoso que houvesse na carne alguém tão belo como ele. Assim ele cresceu até ser um jovem guerreiro e apto a usar armas. Grandes então eram seu brilho e sua alegria e seu espírito brincalhão. Nos jogos ele superava todos os seus camaradas, tanto em lançar a bola e correr, e em saltar, e atirar pedras, e cavalgar. Ele tinha, em resumo, a vitória em todos esses jogos. Um dia, assim, um certo guerreiro tomou-se de inveja dele, e disse num transporte de ira: “Tu”, disse ele, “cujo clã e família ninguém conhece, cuja mãe e pai ninguém conhece, nos derrota em cada jogo, seja em terra ou na água, e mesmo nos tabuleiros!”
Então Máel Dúin ficou calado, pois até então ele pensava ser um filho do rei e da rainha que o criara. E disse à sua mãe de criação: “Eu não comerei e não beberei até que me digas”, disse ele, “de minha mãe e meu pai”. “Mas”, disse ela, “porque perguntas tu sobre isso? Não dês atenção às palavras dos guerreiros orgulhosos. Eu sou a tua mãe”, disse ela, “o amor das pessoas do mundo todo por seus filhos não é maior que o amor que tenho por ti”
“Pode ser”, disse ele, “mesmo assim, revele meus pais a mim”.
Assim sua mãe de criação foi com ele, e o entregou às mãos de sua (própria) mãe; e então ele insistiu para que ela declarasse quem era seu pai.
“Tolo”, disse ela, “é o que tu fazes, pois mesmo que conhecesses teu pai isto não lhe traria bem algum, e serias mais feliz sem o saber, pois ele morreu há muito”.
“É melhor para mim que eu saiba”, disse ele, “ainda assim”.
Então sua mãe lhe disse a verdade. “Ailill do Gume de Batalha foi teu pai”, disse ela, “dos Eoganacht de Ninuss”.
Então Máel Dúin foi para a terra de seu pai e para sua herança, levando seus (três) irmãos de criação com ele; e amados guerreiros eles eram. E então sua família lhe deu boas-vindas, e o conclamou a ter bom ânimo.
Certo tempo depois havia um número de guerreiros no cemitério da igreja de Dubcluain, colocando pedras. Assim o pé de Máel Dúin pisou as ruínas calcinadas da igreja, e sobre elas ele ia colocando uma pedra. Um homem de língua venenosa da comunidade da igreja, Briccne era seu nome – disse a Máel Dúin: “Seria melhor”, disse ele, “vingar o homem que aqui foi queimado do que pôr pedras sobre seus ossos chamuscados”.
“Quem (era) ele?”, disse Máel Dúin.
“Ailill”, disse ele, “teu (próprio) pai”.
“Quem o matou?”, perguntou Máel Dúin.
Briccne respondeu: “Bandoleiros de Leix”, disse ele, “e eles o destruíram bem aqui”.
Então Máel Dúin jogou longe a pedra (que ia colocar), e enrolou seu manto à sua volta, e suas armas com ele; e ficou enlutado então. E perguntou o caminho que levava a Leix, e lhe disseram que só poderia ir até lá por mar.
Então ele foi ao condado de Corcomroe para buscar um encantamento e uma bênção do mago que lá morava, para começar a construir um barco. (Nuca era o nome do mago e é por ele que Boirenn Nuca foi chamada). Ele disse a Máel Dúin o dia em que deveria começar a construção do barco, e o número de tripulantes que nele deveriam seguir, a saber, dezessete homens, ou sessenta de acordo com outros. E (também) disse que nenhum número maior ou menor que isso poderia seguir; e (por fim) disse em que dia deveria zarpar.
Então Máel Dúin fez um barco de três velas; e os que com ele seguiriam estavam prontos. Germán estava lá e Diurán o Rimador. Assim ele foi ao mar no dia em que o mago lhe havia dito para partir. Quando estavam ainda perto da terra após içar as velas, chegaram no porto seus três irmãos de criação, os três filhos de seu pai e sua mãe de criação; e eles gritaram para que voltassem para que eles pudessem ir junto com eles.
“Vão para casa”, disse Máel Dúin; “pois mesmo que regressássemos, só o número que aqui está seguirá comigo”.
“Nós te seguiremos ao mar e nos afogaremos, a menos que nos deixes ir contigo”
Então os três se lançaram ao mar, e nadaram para longe da terra. Quando Máel Dúin viu isso, ele foi até eles para que não se afogassem, e os resgatou em seu barco.

I

Naquele dia remaram até as vésperas, e a noite após elas até a meia-noite, quando encontraram duas ilhas desoladas, com dois fortes nelas; e então ouviram vir dos fortes os sons e gritos da embriaguez, e soldados, e troféus. E isto um homem dizia ao outro: “Longe de mim”, disse ele, “pois eu sou um herói melhor que tu, pois eu abati Ailill do Gume de Batalha, e queimei Dubcluain com ele e nada de mal foi feito a mim por seu povo; e tu não fizeste nunca nada como isto!”
“Temos a vitória em nossas mãos”, disse Germán, e disse Diurán o Rimador: “Deus nos conduziu e Deus guiou nosso barco. Vamos atacar os fortes, pois Deus nos revelou nossos inimigos neles!”
Quando diziam estas palavras, um grande vento veio sobre eles, que foram levados (por sobre o mar) toda a noite até a manhã. E pela manhã não viram terra nem costa, e não sabiam onde estavam indo. E disse Máel Dúin: “Deixem o barco quieto, sem remar, e onde Deus quiser leva-lo, que leve”.
Então adentraram o grande oceano sem fim; e Máel Dúin disse depois a seus irmãos de criação: “Vós haveis causado isto a nós, forçando sua presença a nós no barco a despeito das palavras do mago e encantador, que nos disse que neste barco só deveria vir o número em que estávamos antes que viésseis”.
Eles não tiveram resposta, exceto ficar calados por algum tempo.

II

Três dias e três noites se passaram, e eles não encontraram nem terra nem solo. Então, na manhã do terceiro dia, eles ouviram um som vindo do nordeste. “É a voz da onda contra a praia”, disse Máel Dúin. Então era dia claro quando eles chegaram perto da terra. Enquanto tiravam a sorte para ver quem dentre eles desembarcaria, veio um grande enxame de formigas cada qual do tamanho de um potro, seguindo sobre a arrebentação em direção a eles, e entrando no mar. O que as formigas desejavam era comer a tripulação e o barco; assim os marinheiros fugiram por três dias e três noites; e não viram mais terra nem solo.

III

Na manhã do terceiro dia eles ouviram o som de uma onda contra a praia, e com a luz do dia viram uma ilha alta e larga; e terraços por toda a sua volta. Cada terraço era mais baixo que o outro, e havia uma fileira de árvores ao redor, e muitos pássaros grandes nessas árvores. E eles discutiram sobre quem deveria ir explorar a ilha e saber se os pássaros eram mansos. “Eu irei”, disse Máel Dúin. Assim Máel Dúin foi, e com cuidado explorou a ilha, e não achou nada de mal nela. E eles comeram os pássaros e trouxeram alguns a bordo do barco.

IV

Três dias depois, e três noites, estiveram eles ao mar. Mas na manhã do quarto dia eles viram outra grande ilha. Arenoso era seu solo. Quando chegaram à praia da ilha viram lá um animal semelhante a um cavalo. As pernas de um cão ele tinha, com garras ásperas e afiadas; e grande foi a alegria dele ao vê-los. E ele saltou diante deles, pois ansiava por devora-los e a seu barco. “Ele não lamenta ter nos encontrado”, disse Máel Dúin; “vamos fugir desta ilha”. Assim foi feito; e quando o animal os viu fugindo, ele correu à praia e começou a cavar a areia com suas garras afiadas, e lhes lançava (a areia e os pedregulhos), e eles não tinham esperança de escapar dele.

V

Então eles remaram para longe, e viram uma ilha grande e plana diante deles. E coube a Germán a má sorte de ir explorar a ilha. “Iremos ambos”, disse Diurán o Rimador, “e tu virás comigo em outra ocasião a uma ilha que me seja sorteada para explorar”. Assim os dois entraram na ilha. Grande era seu comprimento e largura, e eles viram lá um campo verde e longo, com vastas marcas de cascos de cavalos sobre ele. Grande como a vela de um barco era a marca do casco de cada cavalo. Viram, também, as cascas de grandes nozes como (…) e viram, também, grandes sinais (?) da passagem de muitos homens. Assim eles temeram o que viram, e chamaram os outros para ver o que haviam contemplado. Eles tiveram medo então, após verem o que olhavam, e todos, velozmente, apressadamente, retornaram a bordo do barco.
Quando já estavam um pouco afastados da terra, viram (correr) pelo mar até a ilha uma grande multidão, a qual, após alcançar a ilha verde, realizou uma corrida de cavalos. E mais veloz que o vento era cada cavalo, e grande era o clamor (da multidão) e seus gritos e barulho. E o som dos golpes das chibatas dos cavalos foi ouvido por Máel Dúin, e ele ouvia, além disso, o que cada um deles estava dizendo: “Tragam o cavalo cinzento”; “Venha com o castanho para cá”; “Traga o cavalo branco!”; “Meu cavalo é mais veloz!”; “Meu cavalo salta melhor”.
Quando os viajantes ouviram estas palavras, eles fugiram à toda pois temeram que aquele fosse um encontro de demônios.

VI

Por uma semana inteira eles viajaram, com fome e com sede, quando descobriram uma ilha grande e elevada, com uma grande casa na praia, e uma porta voltada para a planície da ilha, e outra (que se abria) para o mar, e nesta porta havia uma pedra bloqueando-a. A pedra era varada por uma abertura, através da qual as ondas traziam o salmão para o meio da casa. Máel Dúin e seus homens entraram na casa, e lá não encontraram ninguém. Depois eles viram uma cama com dossel para o chefe da casa sozinho, e uma cama para cada três da casa, e comida para três diante de cada cama, e um jarro de vidro com boa bebida diante de cada cama e uma taça de vidro com cada jarro. Então eles tomaram a comida e bebida e eles deram graças a Deus Todo-Poderoso, que os salvou em sua fome.

VII

Quando eles partiram da ilha seguiram um longo tempo em viagem, sem comida, famintos, até que encontraram (outra) ilha, com uma grande colina de cada lado, e no meio uma floresta longa e estreita, e grandes eram seu comprimento e sua estreiteza. Quando Máel Dúin entrou na floresta ele tomou (dela) um galho em sua mão ao passar ali. Três dias e três noites o galho permaneceu em sua mão, enquanto o barco estava de velas desfraldadas, contornando a ilha, e no terceiro dia ele encontrou três maçãs agrupadas crescendo na ponta do galho. Por quarenta dias e noites cada uma das maçãs foi-lhes suficiente.

VIII

Depois, então, eles encontraram outra ilha, com uma cerca de pedra à sua volta. Quando se aproximaram, uma grande besta surgiu na ilha, e correu à sua volta. Para Máel Dúin ela parecia veloz como o vento. E então ela foi ao alto da ilha e lá realizou (o feito chamado) “endireitamento do corpo”, a saber, ficar com a cabeça para baixo e os pés para cima; e assim ela fazia; ela girava dentro da sua pele, isto é, a carne e os ossos giravam, mas a pele por fora permanecia imóvel. Ou em outro tempo a pele por fora girava como um moinho, os ossos e a carne permanecendo imóveis.
Após ter ficado por longo tempo deste modo, ela saltou de novo e correu à volta da ilha como havia feito no princípio. Então ela retornou ao mesmo local; e desta vez a metade inferior de sua pele estava imóvel, e a metade superior girava e girava como um moinho. Então, esta era a sua prática quando seguia à volta da ilha.
Máel Dúin e seus homens fugiram à toda, e a besta os viu fugindo e correu à praia para captura-los, e começou a ataca-los, e atirou neles as pedras do atracadouro. Uma destas pedras alcançou o barco deles, e atravessou o escudo de Máel Dúin, e se alojou na quilha do curragh (barco- NT)

IX

Não muito depois eles encontraram outra bela ilha, e ela era deliciosa, e lá havia muitos grandes animais semelhantes a cavalos. Cada um deles arrancava um pedaço do flanco do outro, e corria com sua pele e carne para longe, de modo que de seus flancos jorravam torrentes de sangue escarlate, e disso o solo estava repleto.
Assim eles deixaram aquela ilha velozmente, loucamente, apressadamente, (e eles estavam) tristes, queixosos, fracos; e não sabiam para onde no mundo eles estavam indo e onde encontrariam auxílio ou terra firme.

X

Então chegaram a outra grande ilha, depois de grande exaustão de fome e sede, e tristes e suspirosos, tendo perdido as esperanças de qualquer auxílio. Naquela ilha havia muitas árvores: carregadas de frutos estavam, com grandes maçãs douradas nelas. Animais pequenos e vermelhos semelhantes a porcos ficavam à sombra delas. Eles costumavam ir às árvores e golpeá-las com as patas traseiras, para que as maçãs caíssem delas e eles pudessem consumi-las. Do alvorecer ao crepúsculo os animais não apareciam, mas ficavam em cavernas sob o solo. Por toda a volta da ilha muitas aves nadavam nas ondas. Das Matinas às Nonas mais e mais elas se afastavam da ilha. Mas das Nonas às Vésperas mais e mias se aproximavam dela, alcançando-a depois do sol posto. Então elas apanhavam as maçãs e as comiam. “Vamos”, disse Máel Dúin, “para a ilha onde as aves estão. Não nos será mais difícil (do que foi) para as aves”. Um dos tripulantes foi à ilha, e de lá chamou seus camaradas à praia. Quente era o chão sob os pés deles, e não puderam ficar ali pelo calor, pois era uma terra ardente, e os animais aqueciam o solo sobre eles.
No primeiro dia trouxeram com eles algumas maçãs e as comeram no barco. Quando clareou o dia as aves vieram da ilha nadando pelo mar. Com isso os animais ardentes puseram as cabeças para fora das cavernas, e comeram as maçãs até o pôr-do-sol. Quando eles retornaram às cavernas as aves ocuparam seu lugar, para comer as maçãs. Então Máel Dúin foi com seus homens, e colheram todas as maçãs que ali estavam naquela noite. Tanto a fome como a sede foram deles afastadas pelas maçãs. Assim eles encheram o barco com elas como lhes pareceu por bem, e foram de novo ao mar.

XI

Então quando as maçãs acabaram e a fome e sede deles eram grandes e seus narizes e bocas estavam fartos do cheiro do mar, eles viram uma ilha não muito grande, e lá (havia) um forte cercado por uma elevação branca e alta como se feita de calcário queimado, ou como se fosse uma só rocha calcária. Grande era sua altura sobre o mar; ela quase alcançava as nuvens. O forte estava aberto. À volta da elevação havia casas grandes e brancas como a neve. Quando eles entraram na maior delas não viram ninguém, exceto um pequeno gato no centro da casa brincando nos quatro pilares de pedra que lá estavam. Ele saltava, de um pilar ao outro. Ele olhou um pouco os homens, e não se desviou de sua brincadeira. Então, eles viram três fileiras à volta das paredes da casa, de um lado da porta até o outro lado. Uma fileira, primeiro, de broches de ouro e prata, com os alfinetes espetados na parede, e outra fileira de torques de ouro e prata, grandes como as bordas de barris. A terceira fileira era de grandes espadas, com empunhaduras de ouro e prata. Os quartos estavam repletos de colchas brancas e vestes resplandecentes. Um boi assado no centro da casa, e grandes taças cheias de boa bebida. “Isto foi deixado para nós?” perguntou Máel Dúin ao gato. Ele olhou repentinamente e voltou a brincar novamente. Então Máel Dúin soube que a refeição era para eles.
Então eles comeram e beberam e dormiram. Eles puseram o restante (?) da bebida nas panelas e guardaram o resto da comida. E quando se propuseram a ir, o terceiro irmão de criação de Máel Dúin disse “Devo levar comigo um colar dentre estes?” “Não”, disse Máel Dúin, “não está a casa sem guarda”. Mesmo assim ele o pegou e o levou até o meio do salão. O gato os seguiu, e saltou através dele (o irmão de criação) como uma flecha de fogo, e o queimou até as cinzas, e (então) retornou ao seu pilar. Então Máel Dúin o amansou com palavras, e colocou o colar em seu lugar e recolheu as cinzas do chão do salão, e as lançou na praia.
Então eles embarcaram, louvando e engrandecendo ao Senhor.

XII

Bem cedo na manhã do terceiro dia depois daquilo eles viram outra ilha, com uma paliçada de bronze no centro que dividia a ilha em duas, e viram grandes rebanhos de ovelhas por lá, um de ovelhas negras de um lado da cerca e outro de ovelhas brancas do outro lado. E viram um homem grande separando os rebanhos. Quando ele lançava uma ovelha branca sobra a cerca para o lado das ovelhas negras ela se tornava negra no ato. Quando ele lançava uma ovelha negra para o outro lado, ela logo se tornava branca. Os homens ficaram apreensivos ao verem isto. “Isto seria bom para fazermos”, disse Máel Dúin: “vamos lançar duas varas na ilha. Se elas mudarem de cor nós (também) mudaremos se desembarcarmos lá”. Então eles lançaram uma vara de casca negra no lado das ovelhas brancas, e ela se tornou branca. Então eles lançaram uma vara descascada no lado das ovelhas negras e ela se tornou negra.
“Não foi afortunada (?) esta experiência”, disse Máel Dúin. “Vamos evitar desembarcar aqui. Sem dúvida nossas cores não se sairiam melhor que as cores das varas”.
Eles se afastaram da ilha em grande terror.

XIII

No terceiro dia após isso eles viram outra ilha grande e vasta, com uma vara de belos porcos ali. Dentre eles abateram um porco pequeno.Então eles não puderam carrega-lo para ser assado, então todos vieram à volta dele. Eles o assaram e o puseram no barco.
Então viram uma grande montanha na ilha, e propuseram ir até lá para de lá ver a ilha. Então quando Diurán o Rimador e Germán foram até a montanha encontraram à sua frente um rio largo mas não profundo. Nesse rio Germán mergulhou o cabo de sua lança e ele foi consumido como se por fogo. E assim eles não foram além. E então viram, do outro lado do rio, grandes bois sem chifres deitados, e um homem imenso sentado entre eles. Germán então bateu com a lança no escudo para afugentar os bois. “Porque você afugenta esses bezerros bobos?”, disse o boiadeiro enorme. “E onde estão as mães destes bezerros?”, disse Germán. “Elas estão do outro lado da montanha”, disse ele. Diurán e Germán retornaram aos seus camaradas, e lhes contaram o que viram.
Então eles (todos) partiram.

XIV

Não muito depois eles encontraram uma ilha, com um grande e terrível moinho, onde havia um moleiro enorme…terrível. Perguntaram a ele “que moinho é este?”, “Não…realmente”, disse ele…pergunte o que não sabeis”. “Não”, disseram eles. “Metade do trigo de sua terra”, disse ele, “é moída aqui. Todas as coisas feitas de má vontade são moídas neste moinho”, disse ele.
Nisso eles viram imensos, incontáveis fardos trazidos por cavalos, e seres humanos (indo) ao moinho e vindo dele, novamente; e o que era trazido dele era levado na direção oeste. Novamente perguntaram: “Qual é o nome deste moinho?” “Inber Ter-cenand”, disse o moleiro. Então eles se benzeram com o sinal da cruz de Cristo. Quando ouviram e viram todas estas coisas eles seguiram adiante, de volta ao barco.

XV

Então quando vinham da ilha do moinho eles encontraram uma grande ilha, e uma grande multidão de seres humanos nela. Negros eles eram, tanto de corpo como de vestes. Diademas coroavam suas cabeças, e não cessavam de se lamentar. A sorte má coube a um dos dois irmãos de criação de Máel Dúin de desembarcar na ilha. Quando ele chegou até as pessoas que se lamentavam imediatamente tornou-se um camarada deles e começou a chorar com eles. Dois foram enviados para busca-lo, mas não o reconheceram entre os outros (e) eles também começaram a se lamentar. Então disse Máel Dúin: “Que quatro (dentre vocês)”, disse ele, “sigam com suas armas, e tragam os homens de volta à força, sem olhar a terra nem o ar, e ponham as roupas sobre seus narizes e suas bocas, e não respirem o ar desta terra, e não tirem os olhos uns dos outros”. Os quatro seguiram, e trouxeram à força com eles os outros dois. Quando interrogados sobre o que haviam visto na terra, eles disseram: “Em verdade, não sabemos”, disseram, “mas o que vimos (eles fazendo) fizemos”.
Então fugiram rapidamente da ilha.

XVI

Então chegaram a outra ampla ilha, onde haviam quatro cercas, que a dividiam em quatro partes. Uma cerca de ouro, primeiro; outra de prata; a terceira de bronze; e a quarta de cristal. Reis na quarta divisão, rainhas em outra, guerreiros em outra, donzelas ainda em outra. Uma donzela foi recebe-los e os trouxe à terra, e lhes ofereceu comida. Eles a acharam semelhante ao queijo; e qualquer sabor que agradasse a alguém ali se encontraria. E ela serviu (bebida) a eles de um jarro pequeno, e eles dormiram em embriaguez por três dias e três noites. E por todo o tempo a donzela cuidou deles. Quando acordaram no terceiro dia estavam em seu barco no mar. Em parte alguma viram a ilha ou a donzela.
Então remaram para longe dali.

XVII

Então encontraram outra ilha que não era grande. Lá havia uma fortaleza de portões de bronze e trancas também de bronze. Uma ponte de vidro (se erguia) diante do portão. Quando tentaram subir à ponte eles caíram para trás. Então viram uma mulher sair da fortaleza, com um balde nas mãos. Na parte mais baixa da ponte ela levantou uma laje de vidro, e encheu o balde com a água da fonte que jorrava sob a ponte, e retornou à fortaleza.
“Uma criada vem até Máel Dúin!”, disse Germán. “Máel Dúin, realmente”, disse ela, fechando a porta atrás de si.
Então eles bateram nas trancas de bronze e na rede de bronze diante deles, e o som que faziam era uma música suave e calmante, que os fez dormir até a manhã seguinte.
Quando acordaram viram a mesma mulher (saindo) da fortaleza, com seu balde nas mãos, e a viram encher (o balde) sob a mesma laje.
“Mas uma criada vem encontrar Máel Dúin”, disse Germán.
“Maravilhosamente valioso considero Máel Dúin!”, disse ela, trancando a porta atrás de si.
A mesma melodia os deteve até a manhã. Três dias e três noites se passaram assim. No quarto dia a mulher veio a eles. Ela vestia um manto branco, com um diadema de ouro em seus cabelos. Dourados eles eram. Duas sandálias de prata ela calçava em seus pés rosados. Um broche de prata com detalhes em ouro em seu manto, e uma leve e sedosa túnica sobre sua pele branca.
“Boas vindas a ti, ó Máel Dúin”, disse ela; e ela chamou cada homem (da tripulação) por sua vez, cada um por seu nome. “Há muito sua vinda aqui foi sabida e compreendida”.
Então ela (os) conduziu a uma grande casa próxima do mar, e trouxe seu barco para a areia. Então eles viram na casa um leito para Máel Dúin sozinho, e um para cada três de sua gente. Ela lhes trouxe comida num panelão semelhante ao queijo ou táth. Ela serviu uma porção a cada três deles. Qualquer sabor que alguém desejasse ali o encontrava. Então ela cuidou de Máel Dúin em pessoa. Ela encheu seu balde sob a mesma laje, e serviu de beber a eles. Uma dose para cada três ela serviu.
Então ela viu que eles haviam tido o bastante. Ela repousou de seu cuidado a eles.
“Uma esposa perfeita para Máel Dúin é esta mulher”, disseram seus homens.
Então ela se foi, com seu panelão e seu balde.
Eles disseram a Máel Dúin:” Devemos perguntar a ela se ela, talvez, desejaria dormir contigo?”
“Como seria danoso a vocês”, disse ele, “falar com ela? Ela virá amanhã”. E eles disseram a ela:” Mostrarás afeição a Máel Dúin, e dormirás com ele? E porque não ficar aqui esta noite?”. Ela disse que não conhecia pecado, e nunca havia conhecido o que era pecar. Então ela se foi até sua casa; e na manhã seguinte, à mesma hora, voltou com seus cuidados a eles. E quando eles estavam bêbados e saciados, disseram as mesmas palavras a ela.
“Amanhã”, disse ela, “uma resposta será dada a isto”. Então ela foi ata sua casa, e eles dormiram em seus leitos. Quando acordaram estavam em seu barco e não viram nem a ilha, nem a fortaleza, nem a dama, nem o lugar em que haviam estado.

XVIII

Quando saíram daquele lugar ouviram no nordeste um grande clamor e canto como se fosse o cantar dos salmos. Naquela noite e no dia seguinte até a nona eles remaram para saber que clamor ou que canto ouviram. Eles viram uma ilha alta e montanhosa, cheia de pássaros, negros e castanhos e malhados, gritando e falando em altas vozes.

XIX

Eles se afastaram um pouco daquela ilha, e encontraram outra ilha que não era grande. Lá viram muitas árvores e nelas muitas aves. E depois viram na ilha um homem vestido com os próprios cabelos. E perguntaram a ele quem ele era, e de que família. “Dos homens da Irlanda eu sou”, disse ele. “Fui em peregrinação num barco pequeno, e quando me afastei um pouco da terra meu barco se rompeu sob mim”. ”Eu alcancei terra”, disse ele, “e pus sob meus pés solo de minha terra, e sobre ele eu me ergui do mar e o SENHOR estabeleceu aquele solo para mim neste lugar”, disse ele, “e Deus adicionou um pé de extensão a ele cada ano, e uma árvore a cada ano para crescer ali. Os pássaros que viram nas árvores”, disse ele, “são as almas de meus filhos e minha família, homens e mulheres, que ali esperam o Dia do Juízo. Meio pão, um pedaço de peixe, e a água do poço Deus me deu. Isto me é dado diariamente”, disse ele, “pelo ministério dos anjos. À hora da nona, além disso, outro meio-pão e pedaço de peixe são trazidos a cada homem e mulher, e água do poço, o suficiente a todos”
Quando suas três noites de hospedagem estavam completas, eles se despediram (do peregrino), e ele disse:” Todos vós”, disse ele, “retornarão salvos à sua terra, menos um”.

XX

No terceiro dia após encontraram outra ilha, com uma fortificação dourada à sua volta e no meio era branca como lã. Lá viram um homem, e sua veste era o cabelo de seu próprio corpo. Eles então perguntaram a ele de onde vinha seu sustento. “Em verdade”, disse ele, “Há uma fonte nesta ilha. Às Sextas e Quartas ela fornece soro de leite ou água. Aos Domingos, no entanto, e nas festas dos mártires bom leite ela fornece. Mas nas festas dos apóstolos, e de Maria e de João Batista e nos grandes dias (do ano), ela dá cerveja e vinho”. À nona, então, veio a cada um dos homens meio pão e um pedaço de peixe; e eles beberam à farta do líquido que lhes era dado pela fonte da ilha. E caíram num sono profundo, daquela hora até a manhã. Quando se haviam passado três dias de hospedagem, o clérigo ordenou que partissem. Então eles foram adiante, e se despediram dele.

XXI

Então, quando já viajavam por sobre as ondas há muito tempo, viram ao longe uma ilha, e ao se aproximarem ouviram o ruído de ferreiros batendo uma massa (de ferro) na bigorna com malhos, como se fossem três ou quatro. Quando chegaram perto ouviram um homem dizer ao outro: “Eles estão perto?”, disse ele. “Sim”, disse o outro. “Quem”, disse outro deles, “são esses que dizes que vêm para cá?” “Parecem garotinhos numa jangada ao longe”, disse ele. Quando Máel Dúin ouviu o que os ferreiros diziam, disse: “Vamos nos retirar”, disse ele, “e não virem o barco, mas deixem a proa para a frente, para que eles não percebam que estamos fugindo”.
Então eles remaram para longe, com o barco virado para a frente. Novamente o mesmo homem na forja perguntou:”Eles estão perto do ancoradouro?”, disse ele. “Eles estão descansando”, disse o vigia: “não vão nem lá e nem cá”.
Não muito depois ele perguntou de novo: “O que eles fazem agora?”, disse ele. “Acho”, disse o vigia, “que eles estão fugindo; eles me parecem mais longe do ancoradouro agora do que estavam antes”. Então o ferreiro saiu da forja, segurando com tenazes uma grande massa (de ferro incandescente), e ele a lançou ao barco no mar alto; e todo o mar ferveu; mas ele não conseguiu; pois eles fugiram com toda a sua força de guerreiros, velozmente seguindo ao grande oceano.

XXII

Depois disso eles seguiram viagem até entrarem num mar que parecia vidro verde. Tal era a sua pureza que o cascalho e a areia do mar eram claramente visíveis através dele; e não viram monstros nem bestas entre as rochas, mas apenas o puro cascalho e a areia verde. Por grande parte do dia viajaram nesse mar, e grandes eram seu esplendor e sua beleza.

XXIII

E depois entraram em outro mar semelhante a uma nuvem e lhes pareceu que ele não os suportaria no barco. Então viram sob o mar abaixo deles os telhados de fortalezas e um belo campo. E viram uma besta enorme, horrível, monstruosa, numa árvore lá, e um campo de pasto e a árvore, e rebanhos à volta da árvore e ao lado desta um homem armado, com escudo e lança e espada. Quando ele viu a besta que estava na árvore ele bateu em fuga. A besta esticou o pescoço e alcançou com a cabeça o lombo do maior boi do rebanho e o puxou até a árvore, e lá o devorou num piscar de olhos. Os rebanhos e os pastores fugiram de imediato, e quando Máel Dúin e sua gente viram aquilo grande terror e medo lhes vieram, pois achavam que jamais poderiam cruzar aquele mar sem cair através dele, por ser tênue como a névoa.
Então, depois de muito perigo, eles passaram por ele.

XXIV

Depois eles encontraram outra ilha, e à sua volta o mar se erguia formando vastas colinas (de água) por seu contorno. Quando a gente daquele país os percebeu vindo, se puseram a gritar para eles dizendo:”São eles! São eles!”, até perderem o fôlego. Então Máel Dúin e seus homens viram muitos seres humanos, e grandes rebanhos de gado, e tropas de cavalos e muitos rebanhos de ovelhas. E havia ali uma mulher abaixo deles com grandes nozes que flutuavam no mar, ondas sobre elas. Muitas dessas nozes eles recolheram e levaram com eles. Então se afastaram da ilha e então os gritos cessaram.
“Onde estão eles agora”, disse um dos homens que gritava com os outros.”Eles se foram”, disse outro bando deles. “Não são eles”, disse outro bando.
É provável que houvesse alguém a respeito de quem (os ilhéus) tivessem uma profecia de que ele arruinaria seu país e os expulsaria de sua terra.

XXV

Eles alcançaram outra ilha, onde uma coisa estranha se mostrou a eles, a saber, uma grande torrente que se erguia da praia da ilha e seguia, como um arco-íris, até a praia do outro lado da ilha. E eles estavam deitados lá, sob (a torrente) sem se molhar. E espetavam (com suas lanças) a torrente acima deles; e (então) imensos, enormes salmões caíam da torrente sobre o solo da ilha. E toda a ilha estava cheia do fedor (dos peixes), pois não havia ninguém ali que pudesse recolhe-los todos tal era sua abundância.
Da tarde de Domingo à manhã de Segunda a torrente não se movia, mas permanecia em repouso no mar à volta da ilha. Então eles trouxeram ao meio da ilha os maiores salmões, e encheram o barco com eles, e se foram daquela ilha quieta no oceano.

XXVI

Então eles seguiram até encontrar uma grande coluna prateada. Ela tinha quatro lados, e a extensão de cada lado era a de duas remadas do barco, de modo que sua circunferência era de oito remadas. E não havia um só torrão de terra à sua volta, mas (apenas) o oceano sem fim. E eles não viam como era sua base abaixo, ou como era seu cume acima pela sua altura. Do cume descia uma rede de prata de muito longe; e o barco virou e ficou emaranhado nessa rede. E Diurán golpeou a rede com sua lança. “Não destrua a rede”, disse Máel Dúin, “pois o que vemos é obra de homens poderosos”. “Pelo amor do nome de Deus”, disse Diurán, “faço isto para que minha história seja mais acreditada; e se me couber que eu retorne à Irlanda (este pedaço da rede) será ofertado por mim no altar de Armagh”. Duas onças e meia era seu peso, como foi medido (depois) em Armagh.
E então ouviram uma voz do cume do pilar, poderosa, e clara, e distinta. Mas eles não souberam em que língua ela falava, ou que palavras proferia.

XXVII

Então viram outra ilha (sustentada) num único pedestal, a saber, um só pé a apoiava. E remaram à sua volta para descobrir um caminho para ela, e não o encontraram; mas viram, na base do pedestal, uma porta fechada e trancada. E entenderam que aquele era o caminho de entrada da ilha. E eles viram uma multidão no alto da ilha; mas não falavam com ninguém, e ninguém falava com eles. (Então) eles foram embora de volta (ao mar).

XXVIII

Depois eles chegaram a uma ilha, e lá havia uma grande planície, e nela um grande terreno plano e sem urze, mas com relva macia. Eles viram na ilha junto ao mar uma fortaleza, grande, alta e forte, e uma grande casa lá adornada e com boas camas. Dezessete moças crescidas estavam lá preparando o banho. E eles (Máel Dúin e seus homens) desembarcaram naquela ilha e se sentaram numa elevação diante do forte. Máel Dúin disse então: “Temos certeza que lá um banho está sendo preparado para nós”. E na hora da nona eles contemplaram alguém num cavalo de corrida (vindo) para a fortaleza. Um bom e adornado pano sob sua sela; ela vestia um capuz azul e um manto de orla púrpura. Luvas bordadas a ouro em suas mãos; e em seus pés, sandálias adornadas. Ao chegar, uma das moças imediatamente levou o cavalo dela. Então ela entrou na fortaleza e foi ao banho. Então eles viram que era uma mulher que havia chegado a cavalo, e pouco depois veio uma das moças até eles. “Bem-vinda é a sua chegada!”, disse ela. “Venham para o forte: a rainha os convidou”. Então eles entraram no forte e todos tomaram banho. A rainha se sentava num lado da casa, e suas dezessete moças com ela. Máel Dúin sentou-se do outro lado, diante da rainha, e seus dezessete homens com ele. Então um prato de boa comida foi oferecido a Máel Dúin, e com ele uma jarra de vidro cheia de boa bebida; e (havia) um prato para cada três e uma jarra para cada três de sua gente. Quando haviam todos jantado a rainha disse “Como dormirão os hóspedes?”, disse ela. “Como quiserdes”, disse Máel Dúin. “Vocês irão em breve da ilha”, disse ela, “que cada um de vocês tome sua mulher, aquela mesma do outro lado da mesa, e que a siga para seu quarto”. Pois havia dezessete quartos na casa com boas camas preparadas. Assim os dezessete homens e as dezessete moças crescidas dormiram juntos, e Máel Dúin dormiu com a rainha. Depois todos dormiram um sono profundo até a manhã seguinte. Então pela manhã eles se levantaram (para partir). “Fiquem aqui”, disse a rainha, “e a idade não cairá sobre vocês, apenas a idade que já alcançaram. E vida imorredoura terão sempre, e o que se sucedeu noite passada se sucederá todas as noites sem qualquer esforço. E não mais vagarão de ilha em ilha pelo oceano!”
“Dizei-nos”, disse Máel Dúin, “como viestes dar aqui”.
“Não é difícil (dizer), em verdade”, disse ela. “Aqui vivia nesta ilha um bom homem, o rei da ilha. A ele dei dezessete filhas, e eu fui a mãe delas. Então o pai delas faleceu, e não deixou herdeiros. Assim eu assumi o reinado da ilha depois dele. Todos os dias”, disse ela, “eu vou à planície na ilha para julgar o povo e decidir (suas disputas).
“Mas porque nos deixais hoje?”, disse Máel Dúin.
“A menos que eu me vá”, disse ela, “o que sucedeu noite passada não tornará a se suceder (novamente). Apenas fiquem”, disse ela, “na casa e não terão que labutar. Eu vou julgar o povo por amor a vocês”.
Então eles ficaram na ilha por três meses de inverno; e lhes pareceu como se (esses meses) fossem três anos. “Muito tempo ficamos aqui”, disse um dos homens a Máel Dúin. “Porque não viajamos de volta à nossa terra?”, disse ele.
“O que você diz não é bom”, disse Máel Dúin, “pois não encontraremos em nossa terra coisa melhor do que encontramos aqui”.
(Mas) sua gente começou a murmurar contra Máel Dúin, e disseram que era grande o amor que Máel Dúin tinha por sua mulher. “Deixem-no, então, ficar com ela se ele quiser”, disseram os homens. “Nós regressaremos à nossa terra”.
“Eu não ficarei depois que partirem”, disse Máel Dúin.
Um dia, então, a rainha foi julgar seu povo onde costumava ir todos os dias. Quando ela saiu, eles embarcaram no seu barco. Então ela veio em seu cavalo, e lançou um novelo neles, e Máel Dúin o agarrou, e ele se prendeu à sua mão. O fio do novelo estava na mão dela, e ela puxou o barco até ela, pelo fio, de volta ao ancoradouro.
Então ficaram com ela três vezes três meses. Então chegaram a (este) conselho. “Disto estamos certos, agora”, disseram os homens, “que grande é o amor de Máel Dúin por sua mulher. Por isto ele agarrou o novelo, que se prendeu em sua mão, e pelo qual fomos trazidos de volta à fortaleza”. “Que outro agarre o novelo”, disse Máel Dúin, “e se ele se prender à mão dele, seja ela cortada fora”
Então eles embarcaram em seu barco. (A rainha veio e) lançou o novelo neles. Outro homem agarrou o novelo, que se prendeu à sua mão. Diurán cortou fora a mão dele, e ela caiu, com o novelo, (no mar). Quando ela viu isto, ela logo começou a chorar e gritar, e toda a terra era um só grito, choro e lamento.
Deste modo eles escaparam dela, para longe da ilha.

XXIX

Eles seguiram por longo tempo depois ao sabor das ondas, até encontrarem uma ilha com árvores semelhantes ao salgueiro ou à aveleira. Lá haviam maravilhosos frutos, grandes bagas. Destes eles privaram uma pequena árvore, e tiraram a sorte para ver quem deles provaria dos frutos da árvore. (A sorte) coube a Máel Dúin. Ele espremeu alguns frutos num copo e bebeu )do suco), e caiu num sono profundo daquele instante até a mesma hora do dia seguinte. E eles não sabiam dizer se ele estava vivo ou morto, com espuma vermelha nos lábios, até a manhã em que despertou.
Então ele lhes disse “Colham os frutos, pois grande é sua excelência”. Então eles (os) colheram e misturaram água a eles, para moderar seu poder de embriagar e adormecer. Então recolheram tudo e espremeram o suco e com ele encheram todos os recipientes que tinham; e (então) remaram para longe da ilha.

XXX

Depois disso eles chegaram a outra grande ilha. Um dos seus lados era uma floresta com teixos e grandes carvalhos. O outro lado era uma planície com um pequeno lago. Grandes rebanhos de ovelhas estavam lá. Eles viram ali uma pequena igreja e uma fortaleza. Eles foram à igreja. Um velho e grisalho clérigo estava na igreja, e seu cabelo o vestia completamente. Máel Dúin perguntou:” De onde és?”
“Eu sou o décimo quinto homem da comunidade de Brenainn de Birr. Seguíamos em peregrinação pelo oceano e chegamos a esta ilha. Todos os outros morreram exceto por mim”. E então ele lhes mostrou a tabuleta de Brenainn, que os monges haviam levado consigo em sua peregrinação. Todos eles se prostraram diante da tabuleta, e Máel Dúin a beijou.
“Agora”, disse o idoso, “comam o suficiente das ovelhas, e não consumam mais do que lhes seja suficiente”.
Então por uma estação eles se alimentaram da carne das gordas ovelhas.
Um dia, então, quando eles olhavam o mar viram (o que lhes pareceu) uma nuvem vindo a eles do sudoeste. Depois de um tempo, quando olharam, eles perceberam ser um pássaro; pois viram as garras se agitando. Então ele veio à ilha e pousou numa colina perto do lago. Então pensaram que ele os levaria em suas garras até o mar. Ele trazia consigo um galho de uma grande árvore. Maior que um dos grandes carvalhos (era) o galho, e grandes ramos saíam dele, e uma grande ramada (coberta) de folhas frescas. Frutos pesados e abundantes, vermelhos como uvas mas maiores, trazia. Então (os viajantes) se esconderam, vigiando o que o pássaro iria fazer. Por seu cansaço, ele ficou um pouco em repouso. (Então) ele comeu alguns frutos da árvore. Então Máel Dúin seguiu até a orla da colina para ver se ele lhe faria algum mal, e o que o pássaro fez foi ficar naquele local. Seus homens foram até ele.
“Que um de nós se vá”, disse Máel Dúin, “e colha alguns frutos do galho que o pássaro trouxe”.
Então um deles foi e colheu uma porção dos frutos e o pássaro não o recriminou, e (nem mesmo) olhou (para ele) ou se moveu. Então os dezoito homens, com seus escudos, foram para trás dele, e ele não lhes fez mal.
À hora da nona eles viram duas grandes águias no sudoeste, no lugar de onde o grande pássaro havia vindo, e elas desceram em frente do grande pássaro. Depois de descansarem por um tempo, elas começaram a catar e arrancar os piolhos que infestavam as partes superior e inferior do bico do grande pássaro, e de seus olhos e ouvidos.
Elas (as duas águias) fizeram isso até as vésperas. Então as três aves começaram a comer os frutos do galho. Da manhã seguinte ao meio-dia, elas retiravam as mesmas pragas de seu corpo e arrancavam as penas velhas, arrancando completamente as escamas velhas de sua pele. Ao meio-dia, no entanto, arrancavam os frutos do galho, e com seus bicos elas os quebravam contra as pedras e os lançavam ao mar até que sua espuma ficasse rubra. Depois o grande pássaro foi até o lago e lá ficou se lavando até o final do dia. Depois ele saiu do lago e se acomodou em outro ponto da mesma colina, para que os piolhos que haviam sido removidos não voltassem (de novo).
Na manhã seguinte as (dua) aves com seus bicos arrancavam e alisavam a plumagem (do terceiro), como se com um pente. Permaneceram nisso até o meio-dia. Então descansaram um pouco, e então elas regressaram ao lugar de onde vieram.
Mas o grande pássaro ficou para trás se arrumando e agitando as garras até o final do terceiro dia. Então, na hora terça do terceiro dia, ele alçou vôo e voou três vezes à volta da ilha, e pousou por um pouco na mesma colina. E depois ele partiu para o lugar de onde veio. Mais rápido e forte (era) seu vôo então do que (havia sido) antes. De onde foi manifestado a todos eles que isso era a sua renovação da velhice à juventude, de acordo com as palavras do profeta, que disse “Tua juventude será renovada como a da águia”.
Então Diurán, vendo tal grande maravilha, disse: “Vamos ao lago nos renovar onde o pássaro foi renovado”.
“Não”, disse outro, “pois o pássaro deixou lá seu veneno”.
“Dizes mal”, disse Diurán, “Eu irei primeiro até ele”.
Então ele foi e se banhou lá e levou os lábios à água, e bebeu goles dela. Fortes foram seus olhos depois disso enquanto ele viveu; e nem um dente (de sua boca) caiu, nem um cabelo de sua cabeça; e ele nunca sofreu fraqueza ou adoecimento daquele tempo em diante.
Então eles se despediram do ancião; e das ovelhas levaram provisão com eles. Puseram o barco no mar, e seguiram rumo ao oceano.

XXXI

Eles encontraram outra grande ilha, com uma grande planície. Uma grande multidão estava lá, brincando e rindo sem cessar. A sorte foi tirada por Máel Dúin e seus homens para ver a quem caberia aportar à ilha e explora-la. A sorte caiu com o terceiro irmão de criação de Máel Dúin. Quando ele chegou imediatamente se pôs a brincar e rir continuamente com os ilhéus como se fosse um deles por toda a sua vida. Seus camaradas ficaram esperando por ele por um longo, longo tempo, e ele não retornou a eles. Então eles o deixaram.

XXXII

Depois disso eles viram outra ilha, que não era grande; e uma barreira de fogo à sua volta; e a barreira revolvia-se à volta da ilha. Havia uma porta aberta no lado da barreira. Então, sempre que a porta chegava (em sua revolução) oposta a eles, eles viam (por ela) a ilha inteira, e tudo o que ali estava, e todos os seus habitantes, seres humanos belos abundantes, vestindo trajes adornados e festejando com taças douradas nas mãos. E os viajantes ouviam a música do festim. E por um longo tempo ficaram contemplando aquela maravilha que viam, e a consideraram deliciosa.

XXXIII

Não muito depois que partiram daquela ilha, eles viram entre as ondas uma forma (?) semelhante a um pássaro branco. Eles viraram a proa do barco para o sul, para perceber o que viam. Então quando se aproximaram com seus remos, viram que era um ser humano, e que estava vestido apenas com os cabelos brancos de seu corpo. Ele estava em prostrações sobre uma rocha ampla.
Quando foram até ele, eles lhe pediram sua bênção, e perguntaram de onde havia chegado até aquele rochedo.
“De Torach, em verdade”, disse ele, “eu vim aqui, e em Torach fui criado. Então se passou que eu era cozinheiro lá, e era um mau cozinheiro, pois a comida da igreja onde morava eu trocava por tesouros e jóias para mim; e minha casa ficou cheia de tapeçarias e almofadas e vestimentas, de linho e lã tingida, e de jarras de bronze e pequenos tellena de bronze, e de broches de prata com alfinetes de ouro. De tal modo que em minha casa nada faltava do que os homens entesouram; tanto livros dourados como sacos de livros adornados de bronze e ouro. E eu costumava cavar sob as casas da igreja e levar comigo muitos tesouros”
“Grandes então eram meu orgulho e minha arrogância”
“Então um dia me disseram para cavar uma cova para o cadáver de um camponês, que havia chegado à ilha. Enquanto eu (trabalhava) na cova, ouvi abaixo de mim uma voz do chão sob meus pés: “Mas não cave aqui!”, disse a voz. “Não ponha o corpo deste pecador sobre mim, uma pessoa pia e santa!”
“(Seja) entre mim e Deus, eu (o) porei”, disse eu em minha excessiva arrogância.
“Assim”, disse ele, “se você o puser sobre mim”, disse o santo homem, “perecerá no terceiro dia a contar de hoje, e será um habitante do inferno, e o cadáver não ficará aqui”
Disse eu ao ancião:” Que bem você me concederá se eu não enterrar este homem sobre você?”
“Habitar na vida eterna junto a Deus”, disse ele.
“Como”, disse eu, “saberei disso?”
“Isso não é difícil mesmo a ti”, disse ele. “A tumba que você está cavando ficará agora cheia de areia; deste modo você não poderá e será manifestado a você que é o homem sobre mim, (mesmo) que você me enterre”. Essas palavras mal foram ditas e a cova se encheu de areia. Então depois eu enterrei o cadáver em outra cova. Certo tempo depois eu saí com um novo barco de couro curtido ao mar. Eu embarquei, e estava contente. Olhei à minha volta: e não havia deixado nada em casa, do grande ao pequeno, que não tivesse sido trazido comigo, com meus jarros e escapadas astutas e meus pratos; enquanto contemplava isto, no mar que estava calmo, grandes ventos vieram sobre mim, e me levaram para longe, e não via nem terra nem solo. Aqui meu barco parou, e daqui não se moveu por nada. Quando olhava à minha volta para todos os lados, vi á direita um homem sentado sobre as ondas. E ele me disse “Aonde vais?”, disse ele. “Agradável a mim, digo, seria a direção na qual olho sobre o mar agora”. “Não te será agradável, se mantiverdes a corrente que te prende”. “Que pode ser esta corrente?”, disse eu. Ele me disse: “Até onde a vista alcança, sobre o mar até as nuvens, uma multidão de demônios há à tua volta, por causa de tua cobiça e teu orgulho e arrogância, e por causa de teus roubos e outros maus atos. Sabes tu”, disse ele, “por que o teu barco parou?” “Em verdade, não o sei”. “Teu barco não sairá deste lugar onde está até que tenhas feito minha vontade”. “Talvez eu não a suporte”, disse eu. “Então suportarás as dores do desamparo até que aceites minha vontade”. Ele veio a mim e pôs sua mão sobre mim; e prometi fielmente fazer sua vontade. “Lança”, disse ele, “ao mar todas as riquezas que tens em teu barco”. “É uma pena”, disse eu, “que tudo isso se perca”. “De modo algum isto se perderá. Há um de quem terás proveito”. (Então) eu lancei tudo ao mar, exceto um cálice pequeno. “Vai agora”, disse ele a mim, “e no lugar em que teu barco pare, fica lá”. E ele me deu como provisões um copo de soro de leite e sete bolos. Então eu fui”, disse o ancião, “na direção em que o vento e o barco me levavam: pois tinha remos e meu leme. Enquanto estava lá, um brinquedo das ondas, fui lançado a este rochedo, e então tive dúvida se o barco havia parado, pois não via terra nem solo aqui. E me lembrei do que foi dito, a saber, sentar-me no mar onde o barco parasse. Então me levantei e vi uma pequena pedra, contra a qual batiam as ondas. Então pus meu pé ali, na pequena pedra, e meu barco fugiu de sob mim e a pedra me ergueu, e as ondas se afastaram. Há sete anos estou aqui”, disse ele, “(vivendo) dos sete bolos e do copo de soro de leite que me foram dados pelo homem que me enviou aqui. E não tenho outras (provisões) salvo meu copo de soro de leite. Este ainda permanece. Depois disso eu estive num jejum de três dias”, disse ele. “Depois dos três dias, à hora da nona, uma lontra me trouxe um salmão do mar. Pensei comigo que não poderia comer o salmão cru. Eu o lancei de volta ao mar”, disse ele, e de novo jejuei por três dias. À terceira nona, então, eu vi a lontra me trazer de novo o salmão do mar, e outra lontra trazendo lenha flamejante, e a instalou, e sobrou sobre ela para que o fogo ardesse. Então cozinhei o salmão, e por sete anos mais vivi deste modo. E todos os dias”, disse ele, “um salmão me era trazido, com seu fogo, e o rochedo crescia tanto que (agora) é grande. E neste dis meu salmão de sete anos não me foi dado; (então) eu permaneci (jejuando) por mais três dias. Na terceira nona dos três dias meio pão de trigo, e um pedaço de peixe, foram atirados a mim. Então meu copo de soro de leite fugiu de mim e veio a mim outro copo do mesmo tamanho, cheio de boa bebida, que fica aqui no rochedo e está cheio todos os dias. E nem vento, nem umidade, nem calor, nem frio me afetam neste lugar. Estas são minhas narrativas”, disse o ancião. Então, quando a hora da nona chegou, meio pão e um pedaço de peixe vieram para todos eles, e no copo diante do clérigo no rochedo encontraram sua parte de boa bebida. Depois disse o ancião a eles: ”Todos vós alcançareis vossa terra, e quanto ao homem que matou teu pai, ó Máel Dúin, o encontrarás numa fortaleza à tua frente. E não o mates, mas perdoa-o porque Deus te salvou de múltiplos perigos, e todos nós somos homens merecedores de morte”. Então eles se despediram do ancião e seguiram pelo caminho costumeiro.

XXXIV

Então, depois que haviam seguido por um tempo, chegaram numa ilha de gado abundante, e com bois e vacas e ovelhas. Não havia nem casas nem fortes por ali, então eles comeram a carne das ovelhas. Então alguns deles, vendo um grande falcão, disseram: “Esse falcão é como os falcões da Irlanda!” “É mesmo, verdade”, disseram alguns dos outros. “Vigiem-no”, disse Máel Dúin, “e vejam aonde a ave irá ao se afastar de nós”. Eles viram-no seguir ao sudoeste. Então remaram atrás da ave, na direção em que havia ido. Eles remaram aquele dia até as vésperas. Ao cair da noite viram terra, semelhante à terra da Irlanda. Eles remaram para lá. Encontraram uma pequena ilha e viram que havia sido dessa mesma ilha que os ventos haviam soprado e os levado ao oceano quando saíram ao mar na primeira vez.
Então puseram a proa do barco na praia, e foram em direção à fortaleza que havia na ilha, e ficaram escutando, e os habitantes da fortaleza estavam jantando.
Eles ouviram alguém dentre eles dizer: “Bom seria se não chegássemos a ver Máel Dúin”.
“Aquele Máel Dúin se afogou”, disse outro homem.
“Talvez seja ele quem o despertará do sono”, disse ainda outro.
“Se ele chegasse agora”, disse outro, “o que faríamos?”
“Não é difícil (dizer)”, disse o chefe da casa: “grandes boas-vindas a ele se vier, pois ele passou longo tempo em muita tribulação”.
Então Máel Dúin bateu a argola contra a porta. “Quem está aí?”,disse o porteiro.
“Máel Dúin está aqui”, disse o próprio. “Então abra!”, disse o chefe, “bendita é tua chegada”.
Então eles entraram na casa, e uma grande recepção lhes foi dada, e novas vestes lhes foram ofertadas. Então eles declararam todas as maravilhas que Deus lhes revelou, de acordo com as palavras do poeta sagrado que disse Haec olim meminisse iuuabit. Máel Dúin (então) foi ao seu próprio distrito, e Diurán o Rimador tomou as cinco onças e meia (de prata) trazidas da rede, e as ofertou no altar de Armagh em triunfo e exaltação pelos milagres e grandes maravilhas que Deus realizou para eles. E declararam suas aventuras do começo ao fim, e todos os perigos e riscos encontrados em mar e terra. Então Aed o Belo, sábio-chefe da Irlanda, arranjou esta história do modo que aqui se encontra; e ele o fez (assim) para a delícia da mente, e para o povo da Irlanda a vir depois dele.

Tradução do Irlandês: Whitley Stokes
Publicado: Revue Celtique 9, 1888, 447-495; 10, 1889, 50-95.
Data da Tradução: 1888-9
Tradução do Inglês: Endovelicon
Data da Tradução: 2008

Orientações Mitológico-Culturais e Representacionais da Sexualidade na Grécia Clássica

Orientações Mitológico-Culturais e Representacionais da Sexualidade na Grécia Clássica
Leandro Alves Martins de Menezes1

RESUMO: Neste estudo objetivam-se as relações de poder e representações da sexualidade na Grécia Clássica, a partir da análise de documentos primários e das proposições teóricas de estudiosos como Michel Foucault, Friedrich Nietzsche e Pierre Vernant. A análise enfoca as noções referentes ao amor e às relações com o sexo, construídas pelo pensamento grego do período clássico, e incorporadas nas narrativas lendárias e na literatura filosófica da época. Propõe-se refletir sobre os significados atribuídos às experiências sexuais, à relação com o corpo e com o prazer, com ênfase nas práticas dionisíacas.

Palavras- chave: Grécia clássica, mitologia, amor, corpo, sexualidade e dionisíaco.

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ABSTRACT: In this study, the relations of being able and representations of the sexuality in Classic Greece are objectified, from the primary document analysis and of the theoretical proposals of studious as Michel Foucault, Friedrich Nietzsche and Pierre Vernant. The analysis focuses the slight knowledge referring to the love and the relations with the sex, constructed for the Greek thought of the classic period, and incorporated in the legendary narratives and the philosophical literature of the time. It is considered to reflect on the meanings attributed to the sexual experiences, the relation with the body and the pleasure, emphasis in the practical dionysos.

Key Words: Classic Greece, mythology, love, body, sexuality and dionysos.

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O mito foi uma das primeiras formas de esclarecimento no que se refere à origem humana2. Pautados por ele, os gregos construíram suas concepções de conduta moral, política e sexual. As explicações míticas não fornecem informações claras, deixando assim questões abertas para serem descobertas e estudadas, elas servem como importante fonte de conhecimento do pensamento grego e de suas características de culto. Revelam como os gregos se relacionavam com a natureza, sociedade e costumes.
Ao longo da história ocorreram modificações de determinadas narrativas míticas; parte desse fato se deve às alterações culturais e às recriações orais. As leituras no que se referem à sexualidade na Grécia Clássica são muitas vezes anacrônicas, porque as abordagens acabam sendo feitas com um olhar e uma perspectiva da sexualidade como ela é percebida na atualidade, por olhar muitas vezes, com caráter demasiadamente etnocêntrico. Acima de tudo devemos procurar evitar esse tipo de erro.
Como ressalta Junito Brandão (1987), em seu estudo sobre a mitologia grega:

o mito é sempre uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo. Mito é, por conseguinte, a parole, a palavra revelada, o dito… O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações. E na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico. (Brandão, 1987, p.36)

Na Grécia, durante o período clássico, o mito se estabelece como um importante elemento cultural da sociedade e exerce profunda influência no cotidiano dessa população. Notamos que os deuses, diferentemente da religião cristã, possuem atributos similares aos humanos3. O pensamento mítico fez parte de uma tradição cultural da Grécia Antiga, influiu no cotidiano da população da época e conseqüentemente em seu comportamento sexual. As similaridades mostram o quanto os deuses eram culturalmente presentes na realidade social grega. Nos poemas de Homero, percebe-se que o mundo dos deuses e dos mortais era interligado; havia até relações amorosas4 entre os mortais e deuses, sendo que estes se apaixonavam tão intensamente quanto os mortais.
Os gregos adoravam os deuses5 por meio de representações simbólicas. Parte dessas representações visa certa aproximação do mundo dos mortais com os deuses, e em geral, tais modelos representativos se encontravam nas produções artísticas produzidas em referência a eles6.
Na obra A Homossexualidade na Grécia Antiga, K. J. Dover (1994) argumenta que as:

representações de Ganimedes e Titono, mortais lendários cuja beleza excitava até mesmo as divindades, nos permitem definir os critérios da beleza masculina, e podemos observar que os mesmos critérios são satisfeitos na representação de deuses eternamente jovens (notadamente Apolo) e de meninos ou jovens representados como sendo perseguidos, cortejados ou abraçados por amantes humanos comuns. (DOVER, 1994, p.20)

Nota-se que os deuses tradicionais são caracterizados por serem guardiões de uma ordenação moral, visando moderação, evitando excessos, sobretudo pregando a sabedoria. Apolo se encaixa bem como um exemplo desse deus tradicional. A religião grega influencia diretamente a concepção dos antigos em sua relação com o mundo.
A sexualidade, principalmente o sexo, é um dos grandes focos de interesse presente em toda a história da humanidade, no sentido de entender a gênese de diversos eventos do mundo, visto que pelo sexo se dá a criação dos seres. A idéia de nascimento e morte, sempre foi alvo da atenção humana.
Por conta do mistério que envolve a origem dos homens, sobretudo entre os antigos, o sexo passa a ser um dos principais meios de análise e questionamento em relação a essa origem. Devido a isso vários mitos foram desenvolvidos com relação intrínseca a sexualidade, e a partir desses, podemos identificar determinadas características do imaginário da Grécia Clássica. Os estudos relacionados à mitologia grega foram retomados ao longo da segunda metade do século XIX, sobretudo, por historiadores e filósofos alemães, e estão sendo feitos agora, principalmente pelos franceses, a partir de releituras dos mitos, repensando os modos de sistematizar os valores e as formas de expressão do pensamento grego.
O tema da sexualidade está presente em diversas narrativas míticas, que remontam o imaginário da Grécia Clássica. Para os gregos, o sexo estava ligado à natureza e às forças divinas. Os gregos, segundo Junito Brandão (1987), se sentiam vazios do sentimento de amor e paixão. Não acreditavam que esses sentimentos (compaixão, amor, ódio, sofrimento, etc) eram algo de autonomia do sujeito que sente esse determinado sentimento. Entendiam que essas sensibilidades advinham da vontade e interferência dos deuses. Por isso, acreditava-se em diversos deuses ligados à sexualidade e ao amor, como Dioniso, Afrodite e Eros.
Afrodite (ou a Vênus dos romanos) é, grosso modo, a deusa da beleza e da paixão sexual. A mitologia freqüentemente a mostra ajudando os amantes a superar obstáculos. A influência de Afrodite na vida dos gregos sempre diz respeito à relação entre sexualidade, amor e prazer.
Originário de Chipre, o culto à deusa estendeu-se por Esparta, Corinto e Atenas. Os cânticos de Homero retratam-na como filha de Zeus e Dione. Casou-se por ordem de Zeus com Hefesto, o mais feio dos imortais, a quem foi muitas vezes infiel: com Ares teve alguns filhos, dentre eles Eros. Além de Ares7, foi amante de Hermes, Dioniso e alguns mortais.
Com relação à influência de Afrodite no mundo grego, na obra Religião Grega na época Clássica e Arcaica, Walter Burkert (1977) argumenta que:

A esfera de influência de Afrodite é, de entre as dos outros deuses, a que é dada de modo mais direto e perceptível: a consumação da sexualidade e do prazer. O velho substantivo abstrato para desejo sexual, eros, do gênero masculino, torna-se no deus Eros, filho de Afrodite. ( BURKERT, 1977, p. 300/301)

À medida que seu culto se estendia pelas cidades gregas, aumentava o número de seus atributos, quase sempre relacionados com o erotismo, o amor e a fertilidade. Na Grécia a palavra para designar as relações amorosas era aphrodisia, que significa aquilo que está sob domínio de Afrodite.
Michel Foucault (2003), em História da Sexualidade II (O uso dos prazeres), ao problematizar o conceito de aphrodisia, ressalta:

Os aphrodisia são atos, gestos, contatos, que proporcionam uma certa forma de prazer. Quando Santo Agostinho, em suas Confissões, for lembrar de suas amizades de juventude, da intensidade de suas afeições, do prazer, dos dias vividos juntos, das conversas, dos fervores e dos ritos, ele se perguntará se tudo isso não fazia parte, apesar da aparente inocência, da cerne e dessa ‘glute’ que a ela nos liga(…) (FOUCAULT, 2003 *II, p.39)

Para Foucault (2003), o comportamento sexual entre os gregos foi constituído como um domínio de prática moral. Em sua análise acerca da história da sexualidade, justifica que compreendemos por sexualidade aquilo que a cultura grego-romana chamou de artes da existência. O objeto da preocupação moral era antes a honra do amado e não necessariamente seu sexo biológico, ou seja, não importava se sua herança genética o determinasse homem ou mulher.
Os gregos em geral relacionavam-se com mulheres visando à procriação, e com homens no intuito de buscar prazer e o amor filosófico que vai além do corpo; possibilidade essa que a mulher não poderia oferecer ao homem grego. As chamadas hetairas8 parecem ser uma exceção: tinham um grande número de atributos e habilidades, eram extremamente cultas e até participavam de conversas filosóficas. Uma espécie de prostitutas da época, mas dotadas de atributos que vão além da dimensão puramente sexual.
Percebe-se que, do ponto de vista simbólico, esses deuses vinculados à sexualidade, configuram uma espécie de ruptura das inibições, é o meio da descoberta do amor e da paixão sexual entre os homens. São divindades que presidem à liberação das sensibilidades, embriaguez, amor, sexo, regressão às forças caóticas da vida, sensações e sentimentos constitutivos do imaginário grego.
O culto a Dioniso é um exemplo claro da crescente religião de mistério entre os gregos no período clássico. Deuses como Dioniso, são a antítese dos deuses tradicionais. Em torno do seu culto havia muitas restrições, sobretudo por parte dos membros ligados à aristocracia; dado ser um deus que rompia com a lógica apolínea, própria aos deuses tradicionais. Por isso é que nunca foi reconhecido por completo como um deus Olímpico.
As festas gregas sempre estiveram ligadas à religião. As de Dioniso incluem as representações teatrais que atraem muitos espectadores. São festas marcadas por procissões, danças e carnavalizações. Os estados de embriaguez, impulsionadas pelo vinho e as diversas alterações de consciência, é interpretada pela tradição grega e por Burkert (1977) como uma intervenção sagrada. Assim sendo, pode-se entender que o estado alcoólico no culto dionisíaco representa muito mais que uma possível fuga do mundo sensível, visto que o devaneio torna-se um fim divino em si mesmo, ou seja, o êxtase como interferência divina no mundo dos humanos.
A sensação de êxtase dionisíaco não é alcançada isoladamente, deve ser necessariamente um fenômeno coletivo. Quem se entregava totalmente a esse deus, mesmo entre os gregos, corria o risco de perder sua identidade e ser considerado louco. O dionisíaco é freqüentemente relacionado a prazer sexual visando propriamente o erotismo.
Na edição especial da revista L´ Histoire. Seuil – Amor e Sexualidade no Ocidente, Jacques Le Goff propõe um estudo que diz respeito à recusa do prazer, e nesse mesmo texto, ele diz que:

após um antigo período greco-romano em que a sexualidade, o prazer carnal são valores positivos e onde reina uma grande liberdade sexual, uma condenação generalizada da sexualidade e uma estrita regulamentação de seu exercício são impostas. O principalmente agente desta brusca mudança é o cristianismo. (LE GOFF, 1992, p.150)As festas dionisíacas9 eram carregadas de erotismo, mesmo tendo um caráter religioso. No pensamento grego antigo, as noções de sagrado e profano10 estavam imbricadas. Já as culturas que se desenvolveram no mundo hebraico e cristão mostram modificações na correlação do sagrado e da prática religiosa, ou seja, as ações morais são necessariamente ações de obediência a costumes. Assim sendo, ao contrário do mundo grego, figuras que representassem excessos e libertação de impulsos, sobretudo sexuais, foram julgados como moralmente inadequados e dessa maneira distante de qualquer caráter religioso.

Nos festivais de Dioniso, sobretudo em Atenas, havia performances dramáticas, de forma que seu culto era visto entre os gregos como de gênero dramático. Progressivamente seu culto se tornou tão difundido que passou a ser praticado inclusive em Delfos, santuário de Apolo. Dioniso também era o deus das almas e sua proteção abarcava todo o ciclo de vida. Segundo Walter Burkert (1977),

aparentemente, Dioniso pode ser descrito como deus do vinho e do êxtase embriagante. A embriagues provocada pelo vinho, como alteração no estado de consciência, é interpretada como intervenção de algo divino. No entanto, a experiência dionisíaca excede largamente o aspecto alcoólico e pode ser totalmente independente dele. O devaneio torna-se um fim em si mesmo. (BURKERT, 1977, p.318)

As representações mais antigas do deus mostram-no como um velho de barbas, enquanto que as mais recentes o representam como um jovem.
Não raro, Dioniso era retratado na forma animal, principalmente na forma de animais com chifres. Em seus festivais, acreditava-se que ele aparecia como um touro. Outro animal cuja forma era assumida por Dionísio era o cabrito. De acordo com algumas versões da mitografia grego-romana, para salvá-lo do ódio de Hera, Zeus o transformou em cabrito. E quando os deuses fugiram para o Egito visando escapar da fúria de Tifon, Dioniso foi transformado em um bode.
Em geral suas formas aparecem associadas a animais fecundos. O cristianismo se apropriou desse personagem nas representações do demônio, associando características típicas do Dioniso, personagem de excessos, impulsos sexuais, vinhos, festas e bacanais à perversão diabólica e às condutas imorais.
Nas práticas de culto a Dioniso era costume dançar, desmembrar animais e comer a carne crua; acreditava-se estar comendo e bebendo do próprio deus – ato simbólico também presente na tradição cristã11.
Conforme Brandão,

os devotos de Dioniso, após a dança vertiginosa […], caíam semidesfalecidos. Nesse estado acreditavam sair de si pelo processo do êxtase. O sair de si implicava um mergulho de Dioniso em seu adorador através do ‘entusiasmo’. (BRANDAO, 1987, p.132)

Entre os devotos de Dioniso, o prazer do vinho e o prazer sexual andam juntos. Identificamos que em Dioniso a sexualidade é, em geral, direcionada ao devaneio, euforia pela vida somada à destruição, ao passo que em Afrodite as referências sexuais são muito mais próximas da noção de paixão e amor.
Partindo dos estudos genealógicos do poder em Foucault, distingue-se a experiência grega dos prazeres da experiência cristã. O cristianismo apropriou desses preceitos mitológicos, dessa cultura, e inseriu aos saberes cristãos, estipulando hierarquias de poderes, no sentido se sujeitar características dionisíacas como elementos a não serem seguidos. Esses elementos de saber ao longo da história acabam por serem colocados em circulação e em alguns casos são re-significados. Assim encontra-se um dos efeitos do discurso de um saber que falsamente legitima o discurso da verdade religiosa. Mas esse poder religioso não é dado ao cristianismo, visto que ele se exerce e somente existe em ato, ou seja, o poder no meio social está em potencial, e não é materializada em instituição alguma. O poder é aquilo que reprime e que impõe algo como verdade, assim sendo, o poder é em si a relação de força.
Foucault compreende que o poder não é concebido como um autômato fechado ou como essência e identidade única. As relações de poder não devem ser entendidas como sempre pertencentes na base das práticas legais e/ou jurídicas. No seu entendimento o poder sempre se dá de modo plural, assim como a cultura, advém de um conjunto de práticas sociais que são recodificadas historicamente. Posteriormente suas análises genealógicas de poder, é que Foucault volta o olhar para a biopolítica e o biopoder, visto que para haver a explicitação desses temas, é necessário fazer a priori considerações sobre significados do poder para o autor.
Michel Foucault (2005) no curso do Collège de France Em defesa da Sociedade, ministrado no ano de 1975 e 76, argumenta algumas considerações sobre o poder:

o poder, acho eu, deve ser analisado como uma coisa que circula, ou melhor, como uma coisa que só funciona em cadeia. Jamais ele está localizado aqui ou ali, jamais está entre as mãos de alguns, jamais é apossado como uma riqueza ou um bem. O poder transita pelos indivíduos, não se aplica a eles. (FOUCAULT, 2005, p.35)

Entre os gregos percebemos a implicação da vida natural exercendo influência direta em mecanismos de poder. Com relação à iconografia sobre as praticas de amor e sexo entre os gregos, pode-se compreender o conteúdo simbólico e ideológico da vida biológica na ação educacional e política. Notoriamente o acesso da vida e do corpo faz pressão na história, visto que muito dos estudos sobre epidemias, sexualidade e guerras só foram possíveis nesses momentos de tensões do corpo sob o caráter biológico, assim a biopolítica alcança com mais obviedade a bio-história e o biológico passa então a incidir sobre o mundo cultural e político.
A idéia de verdade é um conceito bastante discutido na filosofia moderna e contemporânea. Nietzsche, em Genealogia da Moral (2004) desenvolve a perspectiva, a partir das proposições dos jusnaturalistas, de que o homem vivia de início em um estado natural, mas com a socialização, tornou-se um ser cultural (adestrado). Porém diferente das posições jusnaturalistas, ele entendia que o homem não era bom nem mau por natureza, e essas atribuições se aplicavam em comunidades mediante seus preceitos morais, que não existem no homem em estado de natureza. Para Nietzsche, o homem é o único animal que domestica a ele mesmo; inventa o certo e o errado, a verdade e a mentira, a moral. A religião e os mitos para ele são invenções necessárias. Quando destruímos nossas ilusões perdemos nossas referências, elas devem ser vividas. A manutenção dessas ilusões é o que nos dá segurança. Conforme Nietzsche:

nas palavras e raízes que designam o ‘bom’, transparece ainda com freqüência a nuance cardeal pela qual os nobres se sentiam homens de categoria superior. É verdade que, talvez na maioria dos casos, eles designam a si mesmos conforme simplesmente a sua superioridade no poder. (NIETZSCHE, 2004, p.21 e 22)

Nietzsche propõe argumentos moldados na formulação de uma sabedoria trágica dionisíaca, que afirma corajosamente até mesmo o sofrimento e tudo o que é estranho e questionável na existência, seus problemas mais dolorosos, as maiores dificuldades. A sabedoria trágica é para Nietzsche como a transposição do dionisíaco em um pathos filosófico. A sabedoria trágica dionisíaca aparece como uma afirmação da realidade da vida capaz de conhecê-la e aceitá-la em seu sofrimento, que é transfigurado em um gênero da arte grega.
Em a Genealogia da Moral (2004), o filósofo argumenta que a cultura é o meio onde o poder se manifesta. Seguindo essa idéia e resgatando Foucault, notamos que é impossível se ter o poder, porque o poder se faz, é um processo que se dá pela linguagem, regras e normas. Assim percebemos por que o mito é uma representação de cultura e poder, ele se encaixa exatamente nas compreensões desses filósofos citados acima, posto que o ser humano é um ser particular que se organiza em símbolos e uma serie de linguagens articuladas produzindo narrativas e conseqüentemente os mitos.
No livro II da obra Aurora (2007), Nietzsche inicia a sua argumentação pensando nas formas de agir moralmente, uma analise do mundo ético, e identifica que a submissão à autoridade de um soberano em nada tem de moral. Aceitar uma determinada crença por um hábito ou herança cultural é um ato cômodo e preguiçoso. Julgamos o outro no ponto de vista do que ele pode fazer por nós, ou seja, o mal passa a ser o que me prejudica. O julgamento moral deve ocorrer na relação com o mundo e não com o ‘eu’. Nas atribuições do que é agir moralmente em uma determinada comunidade. A idéia desse discurso moral como legitimador de verdades, se aproxima muito da concepção de moral foucaultiana, isso justifica a tamanha influência de Nietzsche nas produções filosóficas de Foucault.
Conforme Nietzsche:

a submissão às leis de moral pode ser provocada pelo instinto de escravidão ou pela vaidade, pelo egoísmo ou pela resignação, pelo fanatismo ou pela irreflexão. Pode ser um ato de desespero com a submissão à autoridade de um soberano: em si, nada tem de moral. (NIETZSCHE, 2007, p,77)

Para Nietzsche, não existe uma fórmula que vise efetivamente objetivar uma moral visando algum progresso ou avanço da humanidade. A moral anda na contramão da felicidade, ou seja, ela nada tem a ver com o progresso humano.
O citado livro é dividido em vários aforismos, e em todos Nietzsche vislumbra inúmeras auroras que ainda não brilharam, exatamente deste imaginário a que refere o título da obra, por indicação de um amigo, Peter Gast. O livro aponta uma nova consciência ao homem, no sentido de se refazer enquanto homem, sobretudo no âmbito moral, em suas relações de força e poder.
Na leitura de Aurora, evidencia-se a busca incessante de Nietzsche em pensar uma nova moralidade pós-cristã, visando certa independência da razão em relação à moral, uma prática totalmente dionisíaca. Compreende-se quando Nietzsche considera-se um filósofo emancipado e dionisíaco: ele contrapõe a noção kantiana de moral, visto que para Kant e outros filósofos modernos, a moral nada mais é que respeito à tradição e aos costumes, ou seja, prática de submissão e obediência ao já dado.
Nietzsche especula certo niilismo ativo, rompendo a prática de obediência às tradições. Opõe-se ao niilismo passivo, ao jogo ambígüo de quem discorda e ao mesmo tempo aceita uma determinada tradição, quase sempre por uma obediência aos postulados kantianos.
Aurora visa quebrar os pensamentos morais e éticos tradicionais, pensando uma nova maneira de lidar com a cultura e com todos os eventos no mundo. Assim propõe a amoralidade, no lugar do pensamento moralizante. Busca desmistificar a maneira com que nos relacionamos com o mundo e as noções de certo e errado, bom e mau, belo e feio. Já que as noções de causalidades são meramente imaginárias, ele promove os indícios para evidenciar possibilidades de mudança.
Nietzsche quer criar novos valores para a humanidade, rompendo com elos históricos que sempre unem moralidade com tradição. Nesse ponto, Walter Benjamin, em seus textos de filosofia da história, aproxima-se da perspectiva nietzscheana, exatamente por romper com a noção teleológica dos processos históricos. De modo geral, pode-se dizer que o principal interesse de Nietzsche no livro II, e em toda obra, foi escrever uma nova história dos costumes e da moralidade, uma história social do conhecimento e do pensamento.
Com relação à moral altruísta, Nietzsche ressalta que:

os homens têm em suma falado do amor com tanta ênfase e idolatria porque nunca o tiveram em demasia e porque nunca podiam ficar saciados com esse alimento: é assim que acaba por se tornar para eles ‘alimento divino’. Se um poeta quisesse mostrar a imagem realizada da utopia do amor universal dos homens, certamente devia descrever um estado atroz importunado, e desejado, não por um só ser amante, como isso acontece hoje, mas por milhares e mesmo por todos. (NIETZSCHE, 2007, p.115)

Acerca da questão do altruísmo, Nietzsche demonstra que suas proposições filosóficas são altamente dionisíacas. E, desde esta postura filosófica, disserta sobre diversas civilizações e culturas, criticando a interferência do Estado, os ambientes políticos e o comportamento humano. Por fim, com essa obra, Nietzsche quer abrir portas para um novo dia, um novo rumo para a humanidade, um novo sentido para se entender a vida e para se relacionar com ela da melhor forma.

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Considerações Finais
A meu ver, não faz muito sentido relacionar essas considerações aos sentidos de uma conclusão. Não me propus esgotar as questões que envolvem o tema proposto. Mas, pretendi problematizar as noções referentes ao amor e algumas relações com o sexo, construídas pelo pensamento grego do período clássico, e incorporadas nas narrativas e na literatura filosófica da época, questionando esses processos e, conseqüentemente levantando algumas hipóteses. Podemos então, neste momento, tecer alguns comentários finais acerca do conjunto produzido.
Ao longo do trabalho procurei interrogar as fontes documentais na perspectiva de uma história-conhecimento, sem um discurso de verdades absolutizantes, mas como representações dos valores e práticas morais, culturais e políticas que dizem respeito à sexualidade e ao amor.
Sobre as relações entre a sexualidade e a mitologia grega foi possível perceber que, no pensamento religioso dos gregos antigos, o mundo dos deuses está imbricado com o dos mortais. Diferentemente do Deus cristão, os deuses gregos não eram constituídos de uma perfeição absoluta, o que intensificava a aproximação com os humanos. Algumas narrativas míticas apresentam relações sexuais de deuses com os mortais. O culto a esses deuses vinculava-se à vida cotidiana e à atualização de condutas sexuais e amorosas.
O foco temático incidiu sobre dois dos importantes personagens mitológicos, que representam o amor e a sexualidade: Afrodite e Dioniso. Como a idéia do estudo era relacionar a mitologia e a realidade social, procurei evidenciar o modo como esses deuses influíam na sociedade, sob a ótica da aphrodisia e o dionisíaco. Em Dioniso, a sexualidade é relacionada ao devaneio, à euforia por viver e pela vida somada à destruição, ao passo que em Afrodite as referências sexuais são muito mais próximas da noção de paixão, encantamento e amor.
Ressalta-se que a Grécia Clássica influenciou diversas civilizações contemporâneas e posteriores a ela. Sua herança cultural manifesta-se na civilização cristã. Neste sentido, intencionei esclarecer algumas apropriações da cultura grega na moral cristã, as relações com a (a)moral dionisíaca, tomando como referência algumas inquietações de Nietzsche.
Na leitura das fontes, contatei as diferenças na maneira de lidar com a sexualidade no mundo grego e o cristão. Estas diferenças estão estreitamente ligadas às relações entre subjetividade e verdade, como sustenta Michel Foucault. Um mesmo conceito pode ter significados e implicações bem distintas, se pensarmos no mundo grego clássico e o cristão, sobretudo se o foco da análise disser respeito à sexualidade.

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Notas
1 Leandro Alves Martins de Menezes: Cursa pós-graduação em História Cultural (UCG), é licenciado em História (UCG), bacharelando em Filosofia (UFG) e bolsista de iniciação científica pelo CNPq.

2 De acordo com P. Vernant (2000) : “ […] as cosmologias retomam e prolongam os temas essenciais dos mitos cosmogônicos. Trazem uma resposta ao mesmo tipo de questão; não procuram, como a ciência, leis da natureza; interrogam-se, com o mito, como a ordem foi estabelecida, como o cosmos pôde surgir do caos.” (p.83)

3 Os deuses expressavam sensações e sentimentos com uma determinada ocorrência da mesma forma que um imortal, mas detinham noções ligadas à despreocupação em relação a aspectos como idade e mortalidade, visto que são imortais, ao contrário dos humanos.

4 A relação amorosa clássica entre um mortal e um deus é percebida no mito de Apolo e Daphne.

5 A mitologia grega acolhe freqüentemente novos deuses na sua constituição religiosa, de forma que os antigos deuses não percam seu lugar.

6 Os gregos antigos acreditavam que os deuses encarnavam nas estátuas construídas, sob um âmbito antropomórfico.

7 Ares é o deus da guerra, da violência, da fecundidade, considerado um semeador da discórdia e viril amante das mulheres divinas. Não era muito apreciado pelos gregos, pois eram priorizados os valores do espírito e à sabedoria. Filho de Zeus e Hera, foi educado por Príapo- filho de Dionísio e Afrodite. Nos relatos homéricos, Ares nasceu com um falo descomunal, sendo abandonado por sua mãe, porque ela temia ser ridicularizada pelos deuses. Seu culto é originário da Trácia. O povo dessa região era considerado pelos gregos como seres rudes e incultos. Assim como Dionísio, era desprezado pelos deuses olímpicos. A agressividade, os instintos desenfreados e a falta de estratégias levaram Ares à dificilmente vencer as lutas que travava. Possuía uma energia sexual não controlada e nunca teve muito sucesso com seus amores. Quando rejeitado, violentava as mulheres brutalmente.

8 Em geral, as mães eram ex-prostitutas que preparavam as filhas a posição de hetairas, visando se enriquecer a partir desses atributos.

9 “Entre os festivais dionisíacos gregos, tem de ser distinguidos pelo menos quatro tipos: a festa das Antestérias na região jônico-ática que está diretamente ligada ao saborear do vinho, conjuntamente com a festa das Laneias que a precede; a festa das Agrionias na região dórica e eólica, uma festa da dissolução e da inversão com uma rebelião das mulheres. As dionisíacas rurais com o sacrifício do bode e uma procissão fálica. Finalmente, a chegada de Dioniso vindo do mar, Catagogia, as Grandes Dionisíacas, que foram introduzidas em Atenas no século VI. O que é comum a todas é o período embriagante de licença, sendo enfatizado ora o sacrifício do bode, ora o sacrifício do touro. A par das festividades estatais, existem sempre as festas, orgia, celebradas por pequenos grupos, colégios e associações de culto. Foi realçado com freqüência que estas eram tritéricas, ou seja, eram festejadas de dois em dois anos. Cedo se desenvolveram cultos secretos, mistérios.” (BURKERT, 1977, p.321)

10 As religiões cristãs e hebraicas promoveram a separação do sacro e profano. De forma que o sacro representa o culto beneficamente e o profano passou a ser entendido de forma negativa. “(…) tempo sagrado, o tempo das festas (na sua grande maioria, festas periódicas); por outro lado, há o tempo profano, a duração temporal ordinária na qual se inscrevem os atos privados de significado religioso. Entre essas duas espécies de Tempo, existe, é claro, uma solução de continuidade, mas por meio dos ritos o homem religioso pode ‘passar’, sem perigo, da duração temporal ordinária para o Tempo sagrado.” (ELIADE, 2001, p. 63)

11 No ritual cristão, a hóstia representa o corpo sagrado do Deus.

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